3 de jan. de 2009


ENTRE VARIÁVEIS


Somos sós,
Dentro da multidão
E no intruso vazio que nos cerca

Somos livres,
Atados pelo nó apertado
E pela palavra concreta
Que já não assola o medo

Somos inteiros,
Um caso a parte
Parte partida ao meio
Em cacos perdidos e feridas vivas

Somos guerra,
Um paraíso confuso
Então,
Cadê o pecado?
Eu digo
Juro que confesso
Sem Deus
E sem profeta
Declamo agora:


Somos arte!


foto e texto: Márcio Jorge

14 de dez. de 2008

MANDENGOS 









Havia (só) uma noite de lua minguante

Mínguas de lua para mim

Para que?  

 

Havia um desejo secreto sob aquele sorriso discreto  

Onde estão as estrelas da noite minguante?   

As mínguas esparramam-se como pó

Em fornalhas, 

apodrecem as miudezas...

 

Havia uma noite de lua minguante,

Crescente no sentido vário

Rara gota de esperança 

Para que?

Para despejar o pó em relicário descoberto

Para transpor caminhos, vales,

selvas e mandengos...    


Havia uma história invertida

Um recado, 

uma ponte levando para o mesmo lado.                  

          

...

 Ilustração: Camile Pissarro


1 de dez. de 2008













Para quem curte um programa alternativo, uma boa opção é aproveitar as atrações do VIII Mercado Cultural que acontece a partir do dia 03/12 em Salvador. Vou conferir os shows de Rajery e América Contemporânea no sábado às 21:00h e os de André Abujamra e Fernanda Takai no domingo às 20:00h, todos no palco do TCA. Dê uma olhada na programação musical:

03 de Dezembro de 2008 (Quarta-Feira)

Horário
Atrações
Local da Apresentação
Estado/ País

21h
Letieres Leite & Orquestra Rumpilez
Sala Principal - TCA
Bahia
PercaDu
Sala Principal - TCA
Israel

04 de Dezembro de 2008 (Quinta-Feira)

Horário
Atrações
Local da Apresentação
Estado/ País

18h
Alejandro Vargas Cuarteto
Sala do Coro - TCA
Cuba
19h
Silent Disco com DJ Nico
Foyer do TCA
Holanda
21h
C4
Sala Principal - TCA
Venezuela
Chico Pinheiro
Sala Principal - TCA
São Paulo

05 de Dezembro de 2008 (Sexta-Feira)

Horário
Atrações
Local da Apresentação
Estado/ País

18h
Opanijé
Sala do Coro - TCA
Bahia
Emerson Taquari
21h
Sons da Catalunha: Miquel Gil
Sala Principal - TCA
Catalunha
Jards Macalé
Sala Principal - TCA
Rio de Janeiro

06 de Dezembro de 2008 (Sábado)

Horário
Atrações
Local da Apresentação
Estado/ País

15h
Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta
Praça Pedro Archanjo - Pelourinho
Bahia
Eletropercussiva
Kissukilas
La Revuelta
Colômbia
21h
Rajery
Sala Principal - TCA
Madagascar
21h
America Contemporânea: Álvaro MontenegroAquiles Báez Benjamin Taubkin Ari Colares Lula AlencarSibaJoão Taubkin Lucia PulidoLucho Solar
Sala Principal - TCA
BolíviaVenezuelaSão PauloSão PauloRNPernambucoSão PauloColômbiaPeru

07 de Dezembro de 2008 (Domingo)

Horário
Atrações
Local da Apresentação
Estado/ País

16h
Sons da Catalunha: Roger Mas
Sala do Coro - TCA
Catalunha
20h
André Abujamra
Sala Principal - TCA
São Paulo
Fernanda Takai
Sala Principal - TCA
Minas Gerais
___________________________________________

Para ver a programação completa, acesse o site do evento: http://www.mercadocultural.org/ .

30 de nov. de 2008


DESVIO

É certo que desfaço
A matéria presa do retrocesso
Transformo a cada passo
Ordens escassas do universo
Segue minha alma tranqüila
Esquivando-se do arranhão profundo,
Espinho espetado no osso
Urgente jaula aberta


E de fora permaneço
sem remorso.

Márcio Jorge
ilustração: Marc Chagall

16 de nov. de 2008

Karel Appel

CONTORNO

Parece confuso
Albergar os pensamentos mais límpidos
Ando no nebuloso leito do preciso
E o desgosto degolado
É deveras escondido.

Peleja grata
Por mais ambígua que pareça
Sou alvo de mim mesmo
Salvo, o que não vejo.


Márcio Jorge


2 de nov. de 2008

Salvador Dali

HORAS CERTAS

Visito os fatos aqui presentes
Solto, ainda estou para gritar
Buscar o caminho revolto
Decifra as coisas guardadas
no paiol do tempo de guerra santa.

Da varanda, visito as horas que precedem
acontecimentos avulsos:


A escuridão e o gozo,
O amor degustado com requinte,
Luas, constelações, delíquios e um céu de poesia,
A selva e a barbárie,
O jornal pingando sangue no corredor de casa,
A correspondência violada,
O cigarro, a cigarra, os arquivos empoeirados,
A oferta da mão em falta!

Continua o tempo de sentimentos falecidos,
A história conduzindo ao crime,
Muros de concreto separando os líquens,
Perdeu-se a simbiose?
São horas certas para desaguar o rio sujo,
o caldo sujo, a fonte indesejada.


Visito a cidade ao som das melodias:
Assovios de balas,
Cânticos de fiéis,
Cantigas de roda,
Funks de guetos,
Reggaes de Marley,
Choros de fome,
Sinfonias de Bach,
Batuques, batidas, bandolins...

Se é certo,
Ou mero desatino
Espalho-me pela madrugada
Ser inocente,
É viver sem destino.

Márcio Jorge

19 de out. de 2008

OUTRA VEZ

Amanheceu,
Como tão livre sonho
Estende-se até agora?
Foi-se então
Como já fora
E como já voltara
É realista o fim surreal
Fecho as janelas
Fortes e corajosas
Ultrajam a luz do sol
E não deixam refletir
O fim nem o começo
É provocante
É indecente

É apenas outra vez...



texto: Márcio Jorge
ilustração: Joan Miró


7 de out. de 2008


AÇOITE

Cândido Portinari


A noite extravasa o meu verso,
A ira trafega em veias suntuosas.

A palavra invade o meu silêncio
E os capilares ordenham o sangue
Em cada esquina que se ouve as baionetas
Ou serão meros torpedos?
Quem apostará?

O açoite não veio da noite
Mas de um dia claro

Por demais claro...

Márcio Jorge

28 de set. de 2008

Paul Cézanne

OBSERVANDO

Na terra
Criou-se a raiz
Surgiu um tronco cascudo
Com folhas, flores e frutos
Quem percebeu?
Será que só eu?

No céu
Juntaram-se as nuvens
Caiu a chuva
Que molhou o terreno esquecido
Onde rola a roda
Pelo leito do rio seco
Quem percebeu?
Será que só eu?


Márcio Jorge


21 de set. de 2008

OH, MINAS GERAIS!
Ontem estive presente em mais um pouso do 14 Bis em Salvador. Fazia tempo que a banda mineira não aterrissava em solo baiano e a nostalgia tomou conta do sempre agradável Teatro Castro Alves. Todos pareciam ansiosos por uma bela apresentação da banda que marcou época nos anos 80 e continua emocionando novas gerações. Com poucas canções novas no roteiro do espetáculo, o show iniciou com a deliciosa música de Milton Nascimento e Fernando Brant Bola de Meia, Bola de Gude e continuou apresentando grandes sucessos como: Todo Azul do Mar, Espanhola, Caçador de Mim, Natural e Canção da América. Um dos momentos mais emocionantes foi quando Cláudio Venturini lembrou o inesquecível Renato Russo, cantando Mais uma Vez e quando interpretou Planeta Sonho, levando o público ao delírio completo. No final do bis, a galera não agüentou ficar nas cadeiras e desceu para perto do palco, onde todos cantaram com a banda o clássico Linda Juventude, encerrando mais um capítulo especial do 14 Bis na Bahia.

Tenho uma identificação forte com Minas Gerais e devo confessar que a música mineira é uma das responsáveis pela formação desse elo, que não sei direito como e quando se originou. Morei 3 meses em BH, mas muito antes já sentia algo diferente pela cultura mineira. Recentemente, em uma das minhas viagens musicais, redescobri uma obra-prima da MPB, o cd CLUBE DA ESQUINA 2, digo redescobri, porque não lembrava como é simplesmente genial esse trabalho, sem dúvida, um dos maiores registros musicais de todos os tempos. Comentei com o meu grande amigo Uber, que por coincidência (ou não), justamente antes do nosso papo, andou cantarolando em casa uma das músicas dos mineirinhos. De Minas posso citar diversos talentos que admiro bastante, mas Milton Nascimento é o que podemos chamar de sublime, ESPETACULAR! Bem, fico a espera de outros grandes momentos musicais como o show do 14 Bis e termino este papo baiano/mineiro com doces palavras do poeta:

“Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou...”
Milton Nascimento

15 de set. de 2008

foto: Stella Alves

CADA OUTRO

Estou só,
Não acordei a lua de sono profundo
Não tirei estrela alguma para dançar
O que faço nessa noite de solidão,
se não despertar para mim mesmo?


Encosto a cabeça num canto qualquer,
Espero a chegada de outros,
Que há tempos não aparecem
para uma visita infinda
Cada outro que sai deste corpo agora,
já trouxe a chave que preciso
As portas , finalmente, são abertas
Deixo cair o manto num gesto delicado
Tantas possibilidades de ser,
é o que emerge dessa “desclausura”.

Ser nuvem, sol, chuva, o gosto agridoce da vida,
Ser galho, fruto, folha, clorofila
Ser a transparência do amor completo,
o retrato idolatrado pelo tempo
Enfim, transformar?
Ser ninho, ovo, asa,
ser somente PASSARINHO.


Márcio Jorge

7 de set. de 2008


MÍSTICO


Sob a noite mansa
Cansa estar sob
Palpitante preguiça de levantar o manto
Nem a cobiça
Por um ínfimo minuto
Vestiu a arrogância
Deixando assim,
Perdida a vontade
Que continua sob...

texto: Márcio Jorge
ilustração: Aldemir Martins