27 de jun de 2015

O DESERTO E A POESIA

















A palavra “deserto” é muitas vezes dita ou escrita, principalmente em poemas, para definir um local não aprazível ou um estado de espírito não muito interessante. Devo contar que não falarei aqui do deserto da alma ou do coração ou mesmo do árido deserto de sol escaldante, daquele que racha a cuca de tanta quentura. Como começar este papo falando de um lugar que traz em si uma antítese do seu próprio significado literal? Talvez não seja simples comentar sobre as obras grandiosas da natureza, aquelas que transformam homem feito em criança inocente, desesperada para conter nas próprias mãos o encanto de tamanha beleza.  

O Deserto do Atacama, situado ao norte do Chile, é algo assim comovente, místico, imponente, arrebatador desde sempre. Diferente do que se imagina, o Atacama é formado por diversos cenários naturais, onde se encontra lagunas de água doce e salgada, vulcões, esculturas de pedras, cactos, dunas, gêiseres, salares, cavernas, oásis, cânions, além das lhamas, vicunhas e flamingos. Tudo é exageradamente belo e a força da ancestralidade indígena pode ser sentida em todo lugar. Sabia desde o início que não seria apenas uma viagem, mas sim, uma experiência capaz de provocar reflexões profundas sobre a forma de ver e sentir as agruras e alegrias dessa vida.
 
Chegar a San Pedro de Atacama foi o ponto de partida para mergulhar no universo de mistérios e poesia que este santuário   pode proporcionar. Um vilarejo aconchegante que nos envolve totalmente com a leveza disponível em cada canto a ser descoberto. O vai e vem dos visitantes de toda parte do mundo forma a dinâmica tranquila das ruelas abarrotadas de existências. Um dia após a minha chegada, já passado o ligeiro mal estar da altitude, pude perceber que algo muito especial estava por vir, então, segui os caminhos que me levaram para o Vale da Morte, o Vale da Lua e a Cordilheira do Sal. Esta região foi explorada pioneiramente pelo padre e arqueólogo belga Gustavo Le Paige, ainda no século passado. Na geografia destas paisagens  deslumbrantes, tudo impressiona bastante, como as esculturas de sal,  as crateras do solo (que fazem lembrar a superfície lunar e nos remete a um filme de ficção científica) e as estranhas formações rochosas modeladas pela ação erosiva da água e dos ventos. No topo da duna maior, no Vale da Lua, o pôr do sol oferece aos aventureiros uma vista de perder o fôlego. Enquanto o sol se põe, as cordilheiras vão mudando através da variação das cores produzida por mais um espetáculo natural, que arranca suspiros, lágrimas e aplausos de quem estiver assistindo. Confesso que comigo não foi diferente!

Entre os diversos roteiros propostos, outro passeio interessante foi o Salar de Tara, a quase 4400m de altitude na Reserva Nacional dos Flamingos. Um dia inteiro de muita contemplação. As paisagens também são impactantes e a variedade de imagens incríveis entorpece. Pode ser possível apreciar vulcões, oásis, esculturas colossais, bichos, neve, sol, céu, tudo está lá. Mas, apesar de tantos momentos impressionantes, ressalto a sensação que tive na pequena praça de San Pedro.  Sentado num banco de pedra, vi como aquele lugar acontecia em seu ritmo de coisa quase sagrada. Tinha sim, uma atmosfera cosmopolita por causa dos tantos visitantes que já citei, porém, a interação com os atacamenhos que compõem a identidade do “pueblo” era o que mais me chamava atenção naquele instante. Claro, como em quase todos os vilarejos, onde o turismo está presente, na maioria das vezes os nativos não são evocados para o patamar que merecem. No entanto, naquela pracinha serena, senti uma harmonia que me fez acreditar, por algumas horas, que ali a energia fluía para um mesmo ponto de convergência. Então, preferi o silêncio, a alma farta e a enorme vontade de gritar: ¡ Muchas Gracias !    




 
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(fotos: Márcio Jorge e Flávia Oliveira, Deserto do Atacama - Chile)
 

22 de jun de 2015

LA MISIÓN

foto arte: Márcio Jorge















Atravesar el puente
Bajar sin prisa del monte
Volar sin peso en las alas.

Ir y volver
Cuando quedarse solo
En cualquier lugar.

Tener en la mano la simiente
Y plantar en la vida
Todo lo que se siente. 

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(foto arte: Arco do Triunfo, Barcelona - Espanha) 

14 de jun de 2015

NA PONTA DA LÍNGUA

foto arte: Márcio Jorge
Em novembro de 2014, perdemos o nosso poeta passarinho, que voou distante para encantar outros reinos. Talvez essa seja a definição perfeita para um dos mais criativos poetas da língua portuguesa. Manoel de Barros reconstruiu o sentido da poesia, transformando as insignificâncias em ponte obrigatória para o longo caminhar da reflexão. Inventor das palavras e dos sentimentos profundos, ele era capaz de flutuar na sua mais completa desafetação. Aqui mesmo neste espaço, publiquei um poema em homenagem ao grande escritor das águas, dos matos, das pedras, dos galhos, dos lagartos e das formiguinhas. Para expressar a minha enorme gratidão pela sua obra maravilhosa, o Eco das Nuvens compartilha novamente a  "Ínfima Ode ao Poeta Essencial".   Um beijo Manoel!!! 
  

ÍNFIMA ODE AO POETA ESSENCIAL 
                                          para Manoel de Barros
Mergulho profundo no raso do fundo
No  fundo, no fundo
As insignificâncias levantadas aqui,
Não estão no fundo.

O canto das cigarras está em algum lugar,
No raso?
No fundo?

A goiaba na beira do rio
Faz voar as mariposas,

O raio do sol nascente
Faz chegar os passarinhos,

A formiga no meio do tronco
Faz a paisagem completa,

A falta de assunto
Faz o poeta acordar de sua inexistência.

  Como é bom deitar na rede,
Suspirar de preguiça
Ser a grandeza da poesia ínfima
No fundo, no fundo
Abracemos o mundo!

                                                
                                                       "Palavras
                                          Gosto de brincar com elas
                                                 Tenho preguiça de ser sério."