26 de nov. de 2023

CORTANTE

 

A noite observa

em meu quarto

um poema em formação

 

Juntos

eu e o poema

desenhamos um girassol

 

São flores

o que espera

o olhar sereno

da madrugada

 

São dores

o que atravessa

a lâmina afiada

do poema


A PONTE             

 

No deserto

onde não tenho voz

trago de mim

o indizível

 

No mar

onde não tenho braços

trago de mim

a correnteza

 

Na estrada

onde não tenho olhos

trago de mim

a miragem

 

No dia

onde não tenho alma

faço nascer

o fogo


EM OUTRO LUGAR

 

No corpo asilo

um ímpeto

de furar a casca

 

Como um desmaio

cai uma estrela

no rosto

 

Lentamente

cresce

em outro lugar

 

O pedaço

do rosto

a casca

desprendida

do corpo


15 de nov. de 2023

 VARANDA

 

Um sorriso de rio

desmontou em água,

uma nuvem

 

O sossego de mata

revelou o abrigo

das pedras

 

O profundo

em mim renasce

nas cores

da natureza infinita

 

Faz substância de crescer

raiz

casco

folha

asa de joaninha

 

Há luz de iluminar

colina

poça

ribanceira

passo de inseto

 

Faz nascer cheiro

de primavera

 

                 Uma rosa 

na varanda do mundo

 

SER OU NÃO SER?

 

Ser a brancura

de sal

e desvendar

a viva água do mar

 

Ser árvore

de floresta

e sustentar

os frutos do destino

inconstante

 

Ser manifesto

de motim

e consumir

as palavras ancoradas

no porto (inútil)

da poesia

 

Ser ou não ser?