19 de out. de 2008
7 de out. de 2008
AÇOITE
Cândido PortinariA noite extravasa o meu verso,
A ira trafega em veias suntuosas.
A palavra invade o meu silêncio
E os capilares ordenham o sangue
Em cada esquina que se ouve as baionetas
Ou serão meros torpedos?
Quem apostará?
O açoite não veio da noite
Mas de um dia claro
Por demais claro...
Márcio Jorge
28 de set. de 2008
21 de set. de 2008
Tenho uma identificação forte com Minas Gerais e devo confessar que a música mineira é uma das responsáveis pela formação desse elo, que não sei direito como e quando se originou. Morei 3 meses em BH, mas muito antes já sentia algo diferente pela cultura mineira. Recentemente, em uma das minhas viagens musicais, redescobri uma obra-prima da MPB, o cd CLUBE DA ESQUINA 2, digo redescobri, porque não lembrava como é simplesmente genial esse trabalho, sem dúvida, um dos maiores registros musicais de todos os tempos. Comentei com o meu grande amigo Uber, que por coincidência (ou não), justamente antes do nosso papo, andou cantarolando em casa uma das músicas dos mineirinhos. De Minas posso citar diversos talentos que admiro bastante, mas Milton Nascimento é o que podemos chamar de sublime, ESPETACULAR! Bem, fico a espera de outros grandes momentos musicais como o show do 14 Bis e termino este papo baiano/mineiro com doces palavras do poeta:
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou...”
15 de set. de 2008
foto: Stella AlvesCADA OUTRO
Estou só,
Não acordei a lua de sono profundo
Não tirei estrela alguma para dançar
O que faço nessa noite de solidão,
se não despertar para mim mesmo?
Espero a chegada de outros,
Que há tempos não aparecem
para uma visita infinda
Cada outro que sai deste corpo agora,
já trouxe a chave que preciso
As portas , finalmente, são abertas
Deixo cair o manto num gesto delicado
Tantas possibilidades de ser,
é o que emerge dessa “desclausura”.
Ser galho, fruto, folha, clorofila
Ser a transparência do amor completo,
o retrato idolatrado pelo tempo
Enfim, transformar?
Ser ninho, ovo, asa,
ser somente PASSARINHO.
Márcio Jorge
7 de set. de 2008
22 de ago. de 2008
POR UM MOMENTO

Quanto do mar já servi,
Para abrandar o que agora aparece como dor?
Mas, quanto da rosa levarei,
Para desfazer a enorme intenção de chorar?
Estar preso à vida como numa jaula
E perder o foco das reentrâncias
Faz do silêncio, uma longa trovoada...
Beira de mar, peixes de cor
Leito de rio, brilho de barbatanas
Água, água, água...
Pé de avenca na janela,
Pé de tudo no pomar
Bicho no colo, bicho no pé
Terra, terra, terra...
Quanto desse mundo ganharei,
Para desafogar quem de dentro berra?
Um pássaro sem gaiola,
Um soneto de Vinícius,
Uma espada de Ogum,
Um amor no coração.
Entre canções de ninar,
A boca amarga, CALA-SE!
texto: Márcio Jorge
ilustração: Pablo Picasso
2 de ago. de 2008
TRANSFORMAÇÃO
Márcio Jorge
26 de jul. de 2008
Georges RouaultABRAÇO DE UM POEMA
Antes de tudo,
Coragem!
Para sei lá o quê
Hoje,
Só esse resto de palavras na boca
No poema que me abraça
Enquanto a noite extravasa
E alucina a rosa murcha
No frio que retalha
Em pleno fogo farto,
Açoitando a cicatriz tatuada
Na mão estendida
Frouxa e viva
Morta de cansaço.
Márcio Jorge
28 de jun. de 2008
Papo de Cinema
A CULPA É DO FIDEL – FRA/ITA (2006): Roteiro: Julie Gavras e Arnaud Cathrine, baseado em livro de Domitilla Calamai.
23 de jun. de 2008

MUNDO
Já se conhecia os soldados mucambos,
As balas perdidas,
O extermínio de anjos.
Já se conhecia o corpo blindado,
A chuva ácida,
O escudo queimado.
Sepultada a consciência,
Abrasivo é o alcance da náusea,
O inseto amiúde,
A muleta, a matilha, a muralha...
Já se conhecia o berro do bélico,
A camisa de força,
A hora da síncope.
Deslize, disfarce, desdém?
Calado o silêncio,
Zoeira é furo no feltro,
Hieróglifos em braille,
Uma rosa no asfalto.
Já se conhecia os templos sagrados,
O chão de esgoto,
O fundo do poço.
Já se conhecia as florestas nuas,
A súmula do jogo,
O sumo do boto.
Verdade, suborno, saudade?
Julgada a sentença,
Justa é a lâmina cravada no ócio,
O beijo na íris,
O cheiro, o cio, o sexo...
Já se conhecia o medo,
O transe do trauma,
A guerra, o plágio, o plano...
Trancada a porta,
Resta a lembrança,
A morte jurada,
A vulga esperança.
Já se conhecia o mundo
E o seu dia-a-dia...
Márcio Jorge
Curta Poesia
Salvador Dali
NA ILHA
Barco à vela
que me traz hoje
Um náufrago à deriva
numa ilha perdida,
Cheia de mim.
ERRÂNCIA
Na boca um chiclete vencido
Mascado com indiferença
Corrosivo sabor de hortelã
Ah! Ainda gruda este grude
Boca, palato, língua
(língua espremida)
Gruda.
Tudo se desfaz nessa tarde vazia
E um tiro a esmo atravessa a cidade
Com imensa contemplação.
PASSO A PASSO
Atenção,
Para o que quer dizer,
para o que quer saber,
Para o que quer querer,
para o que NÃO vai fazer!
Atenção,
Para qualquer buraco no chão!








