22 de ago. de 2008


POR UM MOMENTO

Quanto do mar já servi,
Para abrandar o que agora aparece como dor?
Mas, quanto da rosa levarei,
Para desfazer a enorme intenção de chorar?


Estar preso à vida como numa jaula
E perder o foco das reentrâncias

Faz do silêncio, uma longa trovoada...
Beira de mar, peixes de cor

Leito de rio, brilho de barbatanas
Água, água, água...

Pé de avenca na janela,
Pé de tudo no pomar
Bicho no colo, bicho no pé
Terra, terra, terra...

Quanto desse mundo ganharei,
Para desafogar quem de dentro berra?
Um pássaro sem gaiola,
Um soneto de Vinícius,
Uma espada de Ogum,
Um amor no coração.

Entre canções de ninar,
A boca amarga, CALA-SE!


texto: Márcio Jorge
ilustração: Pablo Picasso


2 de ago. de 2008

TRANSFORMAÇÃO

foto: Pierre Verger

Uma porta se fecha, enquanto uma janela se abre à sombra de um novo cometa. O sentimento que devora é o alicerce de almas. Como se não bastasse a feição súplica dos heróis, agora toda conduta se justifica perante a dissolução do imperioso planeta. Não adianta o grito mouco, a carabina apontada para os próprios miolos, o pugilato na vitrine constitui o desfecho. Quem irá nos redimir? O verme rasteja intermitente pelo deserto, a areia movediça atiça, desconstitui o verme, o vírus, a moléstia... É tempo de magos e estrelas, da vida mística, sem complemento.

Márcio Jorge


26 de jul. de 2008

Georges Rouault

ABRAÇO DE UM POEMA

Antes de tudo,
Coragem!
Para sei lá o quê
Hoje,
Só esse resto de palavras na boca
No poema que me abraça
Enquanto a noite extravasa
E alucina a rosa murcha
No frio que retalha
Em pleno fogo farto,
Açoitando a cicatriz tatuada
Na mão estendida
Frouxa e viva
Morta de cansaço.

Márcio Jorge

28 de jun. de 2008

Papo de Cinema

A CULPA É DO FIDEL – FRA/ITA (2006):

A vida de Anna de la Mesa (Nina Kervel-Bey), uma garotinha parisiense de 9 anos, sofre uma profunda transformação quando seus pais resolvem aderir a luta comunista e atuar no movimento para eleger Salvador Allende presidente do Chile. Com a vida pelo avesso, Anna enfrenta uma nova realidade e passa a entender o mundo de outra forma. Sensível, inteligente, questionador e bem-humorado, A Culpa é do Fidel mostra a trajetória emocionante de uma família européia que vive intensamente as reflexões filosóficas e as revoluções políticas da década de 70. Como se não bastasse a interpretação maravilhosa de Nina Kervel-Bey, o filme nos remete a uma avaliação de valores e ideologias, que faziam parte de uma época, na qual o exercício da solidariedade e a confiança em alguma forma de justiça social ainda era possível. Márcio Jorge

Direção: Julie Gavras.

Roteiro: Julie Gavras e Arnaud Cathrine, baseado em livro de Domitilla Calamai.

Elenco: Nina Kervel-Bey (Anna de la Mesa), Julie Depardieu (Marie de la Mesa), Stefano Accorsi (Fernando de la Mesa), Benjamin Feuillet (François de la Mesa), Martine Chevallier (Bonne Maman), Olivier Perrier (Bon Papa), Marie Kremer (Isabelle), Raphaël Personnaz (Mathieu), Mar Sodupe (Marga), Gabrielle Vallières (Cécile), Raphaëlle Molinier (Pilar), Carole Franck (Soeur Geneviève), Marie Llano (Anne-Marie), Marie-Noëlle Bordeaux (Filomena).

Duração: 100 min.

Imagens:





23 de jun. de 2008



MUNDO

Já se conhecia os soldados mucambos,
As balas perdidas,
O extermínio de anjos.

Já se conhecia o corpo blindado,
A chuva ácida,
O escudo queimado.

Sepultada a consciência,
Abrasivo é o alcance da náusea,
O inseto amiúde,
A muleta, a matilha, a muralha...

Já se conhecia o berro do bélico,
A camisa de força,
A hora da síncope.
Deslize, disfarce, desdém?

Calado o silêncio,
Zoeira é furo no feltro,
Hieróglifos em braille,
Uma rosa no asfalto.

Já se conhecia os templos sagrados,
O chão de esgoto,
O fundo do poço.

Já se conhecia as florestas nuas,
A súmula do jogo,
O sumo do boto.
Verdade, suborno, saudade?

Julgada a sentença,
Justa é a lâmina cravada no ócio,
O beijo na íris,
O cheiro, o cio, o sexo...

Já se conhecia o medo,
O transe do trauma,
A guerra, o plágio, o plano...

Trancada a porta,
Resta a lembrança,
A morte jurada,
A vulga esperança.

Já se conhecia o mundo
E o seu dia-a-dia...

Márcio Jorge

Curta Poesia

Salvador Dali

NA ILHA

Barco à vela
que me traz hoje
Um náufrago à deriva
numa ilha perdida,
Cheia de mim.



ERRÂNCIA

Na boca um chiclete vencido
Mascado com indiferença
Corrosivo sabor de hortelã
Ah! Ainda gruda este grude
Boca, palato, língua
(língua espremida)
Gruda.

Tudo se desfaz nessa tarde vazia
E um tiro a esmo atravessa a cidade
Com imensa contemplação.



PASSO A PASSO

Atenção,
Para o que quer dizer,
para o que quer saber,
Para o que quer querer,
para o que NÃO vai fazer!

Atenção,
Para qualquer buraco no chão!


Márcio Jorge



9 de jun. de 2008

Sobre os Comentários

Agradeço muito aos amigos pelo carinho demonstrado através de e-mails e comentários postados no próprio blog. O eco das nuvens é um espaço para textos, reflexões, fotos, dicas e muita poesia. Espero que continuem visitando e compartilhando comigo a trilha da palavra.
Beijo a todos! Márcio.



Veja quem já leu e ouviu o eco das nuvens:

Querido Márcio. Hoje, mais do que nunca, sei que o que dá sentido à vida é o amor. É o amor que produz o aconchego do mundo.Sinto-me feliz por fazer parte da tua vida e partilhar contigo os teus versos. Um grande beijo. Flávia

Caro Márcio, neste mundo de sísifos, que se compõe como tela diante dos meus olhos e que me compõe como carne inquietamente desejante, sempre me emociono com novas descobertas. O vate que se escondia por trás da cortina de timidez ou discrição que ora se mostra à flor da sensibilidade neste blog de muitíssimo bom gosto me causou essa emoção, esse espanto que limpa os olhos condicionados e remove a oxidação da sensibilidade. Me enche de alegria poder ler coisas boas de pessoas tão próximas... Há braços! alan machado

Marcio,
Seus textos são lindos e expressam a verdade
Flávia é uma pessoa muito especial!

Fico feliz em tê-los como amigos. Um grande abraço para vocês. Anairam e Líris

Marcinho, já visitei seu blog. Está maravilhoso! Você é de uma sensibilidade indescritível! Vou continuar visitando e divulgando!
Beijos, Paty

Marcinho,
Amei seu blog. Sempre surpreendente, bem pesquisado, lindas poesias, amei as fotos de Flávia. Tentei enviar um comentário, mas não consegui. Vamos almoçar amanhã?
Dena

Oi Marcinho, também achei muito legal seu blog. Muita luz para você.
Bj, Alê.

oi querido,adorei seu blog tá lindo!!! e suas poesias então...saudades. bjs rê.


Márcio,
Achei seu blog lindo! Gostei do da Flávia também. Sucesso e muita criatividade para vc, colega.
Godoy


Marcinho, demorei mais visitei o seu blog, e é claro... eu já sabia que encontraria algo tão bonito e especial como você, parabéns garoto, continue com seus sentidos ligados ao eco do mundo! Um beijão para você e sua Flavinha! Sara


30 de mai. de 2008

obra de Henri Matisse

Evidência

Não afundes a viga,
O mago,
A liga que te unes à orquídea
Se é mistério o que te afronta,
Pronto!
Eis aí um labirinto
Haverá dias, noites
e um tanto de minutos
A raiz, então, procuras
Abre-te a porta.

Márcio Jorge

UM DIA, UM SONHO...
para Flavinha Oliveira










Era como se não fosse,
A expressão nítida da condição humana
Do jeito que entrara
Parecia, sua presença, infinita e traiçoeira
Como naja,
Preparando o bote

Como grão,
Compondo um castelo de areia.


Era como se fosse,

A forma exata do delírio
Gravura essencial
Vista de aquarela
Da raiz ao semblante de neve.

Era como se fosse,
A estrada de volta
O contorno secreto da margem inexistente


Eu,
Festejara feliz a descoberta
Marchando firme e sem rumo
Contemplando até o fim do dia,
um SONHO.



texto e fotos: Márcio Jorge



29 de mai. de 2008


A MARGEM DA SOLIDÃO

Pobre casulo disforme
Moribundo, faz-se do fio
que tece a solidão

Pobre noite sem luz
Lânguida, faz-se da sombra
que contorna a solidão

Pobre solidão ofegante
Mórbida, desfaz-se num confortável dia
Sem dor.


Márcio Jorge

obra de Paul Cézanne


28 de mai. de 2008

Na Ponta da Língua

ÍNFIMA ODE AO POETA ESSENCIAL
para Manoel de Barros
Mergulho profundo no raso do fundo
No fundo, no fundo
As insignificâncias levantadas aqui,
Não estão no fundo.
O canto das cigarras está em algum lugar,

No raso?
No fundo?


A goiaba na beira do rio
Faz voar as mariposas,

O raio do sol nascente
Faz chegar os passarinhos,

A formiga no meio do tronco
Faz a paisagem completa,

A falta de assunto
Faz o poeta acordar de sua inexistência.

Como é bom deitar na rede,
Suspirar de preguiça
Ser a grandeza da poesia ínfima
No fundo, no fundo
Abracemos o mundo!

Márcio Jorge


foto: Márcio Jorge

27 de mai. de 2008




O BREJO

Tudo foi para o brejo!
E agora?
Rales, barangas, barões,
mendigos, patrícias, maurícios,
Napoleões...

A trêmula flâmula
Esquecida no mastro
É farrapo,
imperceptível.

Tudo foi para o brejo!
E agora?
Famintos, magos, reis,
telúricas, carmelitas, canálias,
Xiitas...

A lama na cama
Nunca foi tão comum
O trono vazio
Ah! Este sim,
perceptível.

Tudo foi para o brejo!
E agora?
Espertos, casados, solteiros,
sortudos, otários, gatunos,
Celibatários...

A lata no meio da rua
O cisco no olho
O alvo incerto
e o lixo continua na lata.

Tudo foi para o brejo!
E agora?
Poetas, pivetes, palhaços,
vassalos, casais, bichas,
Comensais...

O ruído devora a melodia
Esta, sem alforria
É litígio,
inconcebível.

Tudo foi para o brejo,
Até a vaca.