15 de jan. de 2016

SOPRO DO TRANSE

Oswaldo Guayasamín











No transe do não ser
A semente do oculto germina
E do mergulho único
Sem contornos nem limites
Surge o mel da manhã
Com cheiro de girassol
E aves decorando arbustos
A entrega é sempre inexplicável
Não possui medo
Nem sequer o tangível
Move curvas repetidas
Desce em rampas retilíneas
Vai roçando na pele de pêssego
No transe do não ser
A semente do oculto germina
Cai na prata dos perdidos,
Sede de estar livre
Na lonjura de si.  

..........

para Clarice Lispector


14 de jan. de 2016

ESTRADA

foto arte: Márcio Jorge 









Na estrada em que se segue
Segue o sangue da noite escura
Sem a chama capital
E sob a sombra secreta da loucura.

Na estrada em que se segue
Segue o homem e o seu destino
Caminhos de mitos,
Terras e ventos...

Na estrada em que se segue
Ninguém mais caminha
Só a pedra solitária
Na poeira do chão que vivia.

Mas a aurora insistente
Ainda espera
O fim da noite escura
Na estrada em que se segue...



8 de jan. de 2016

PODE SER

Maurice de Vlaminck














Sim, pode ser da vida esta manhã
Pode ser que encontre o seu passo
Firme desfazendo na areia
Até que a espuma desmonte
As finas sobras do seu universo.

Sim, pode ser da vida transformar
Pode ser você afinal!


7 de jan. de 2016

O PRIMEIRO DIA

foto: Márcio Jorge
















O tempo a caminhar sem demora
Nascer em cada dia pulsante
Onde a sede da existência devora
verdades e névoas. 

Hoje, exaspera a corrente de mar,
O vasto baú de quimeras
Entre palmeiras que enfeitam
as horas mórbidas.

E no tempo de passos lentos
Brota o que se quer guardar nas mãos:
Versos, rimas, notas de canção,     
Luz de lua, sorrisos de labareda 
e regalos de amor. 


10 de dez. de 2015

QUASE UM SONETO PARA DIAS E NOITES

foto arte: Márcio Jorge












Por esse tanto azul que remove
A cortina dos dizeres ardis
Trago na mão o amargo da sombra
A lançá-lo no rasgo de vento.

É manhã, ainda lá fora
Escurecem meus olhos com a brancura do tempo
Presságio de gostos e sonhos amenos
Na espera sorridente das estrelas.

O escuro da noite atravessa
O inteiro espaço presente
Odores de perfume e mistério.

No turvo reflexo das águas
Madrugada deixa em meus braços cair,
A delicada flor do novo dia.            


..........

(foto arte: Rio da Prata, Colônia do Sacramento - Uruguai)


8 de dez. de 2015

HIPNÓTICO


Marc Chagall











Nada como a boca na boca

Línguas abraseadas

Fazendo a ponte

Nos palatos de céu rubro

Quentura de sol 

Açoite de beijo,

Inflamável!



1 de dez. de 2015

AZÁFAMA

Raoul Dufy


Sair desse tempo labirinto
 Para sanar o que turva a lente
Ensaio de vida real
No confronto dos dias áridos
Como lama em nascente
Desfalece instantaneamente
O pontiagudo instrumento cortante
Montagem repetida do lado de lá
Mundo de almas incompletas
Vidro na frente
Pronto para rachar.


2 de nov. de 2015

PAPO DE CINEMA 

Correr atrás do sonho, enfrentando com bom humor as dificuldades da vida, é a missão do professor de inglês  Antonio San Roman (Javier Cámara), que utiliza as músicas dos Beatles para ensinar o idioma aos seus alunos. Fã incondicional de John Lennon, o educador resolve viajar para Almería, quando descobre que o seu ídolo irá gravar uma película na região de Andaluzia, no sul da Espanha. Essa é a ideia principal do roteiro belíssimo de Viver é fácil com os olhos fechados, o título da produção foi inspirado no verso da música Strawberry Fields Forever,  composta pelo próprio John Lennon. 



Ambientada na década de 60, o filme produz o clima melancólico e ao mesmo tempo suave do período, além de trazer reflexões interessantes sobre confiança, romantismo, generosidade e determinação. A história é baseada em um fato real, ocorrido em 1966, enquanto John Lennon participava das gravações de Oh! Que Delícia de Guerra do diretor Richard Lester. Durante a longa caminhada até chegar ao beatle, em plena ditadura franquista, Antônio encontrou na estrada dois jovens em conflito com a repressão moral que ditava as regras de comportamento da época. Belén (Natalia de Molina), uma garota grávida que fugiu do internato onde foi posta pela família para esconder a gravidez “indesejada” e Juanjo (Francesc Colomer), um adolescente de 16 anos que saiu de casa por causa das discussões com o pai autoritário.  O encontro inusitado muda de forma definitiva a vida dos três personagens, além de tornar a aventura do simpático professor muito mais emocionante e divertida. 

 
"Viver é fácil com os olhos fechados"  (John Lennon)


O filme de David Trueba é convidativo e consegue mostrar uma delicadeza comovente na fotografia explorada nos caminhos sinuosos para Almería. A trilha sonora original tem a marca dos jazzistas Charlie Haden e Pat Metheny. Indicado pela Espanha para concorrer a uma vaga na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro, Viver é fácil com os olhos fechados ganhou 6 prêmios Goya (melhor filme, diretor, roteiro original, ator, atriz revelação e canção original), principal premiação do cinema espanhol. O personagem carismático do ator Javier Cámara, já famoso pelas atuações nos filmes de Almodóvar, é sem dúvida uma entrega absoluta aos sentimentos mais puros do indivíduo, em busca apenas da realização de um sonho juvenil. Pode levantar que esse vale o aplauso!!! 



1 de nov. de 2015

TENTÁCULO

Pablo Picasso



















Sublimar o amor
Assim como o sol           
Abrindo clarões...

No cristal da pupila viva
Arco entre dois mundos
Aroma secreto
Desencadeia o desmonte da cerca.

E agora?
Escadas subindo ao cume          
Ondas de fogo em movimento. 


7 de out. de 2015

  ESCRITO

foto: Márcio Jorge

















Estava escrito na parede de casa
Não ter os olhos vendados, nem a face nua desbotada
Perto de tudo e longe da essência sonhada.

O gesso do braço quebrado
A falta de ar, o excesso de gozo
A ponta de lança no pescoço.

O espaço obstruído pelo vazio      
A caça escondida na mata                      
O medo afastando o cio.

Fugir, fincar espada, surgir do nada
Ser bicho maleável, contornar o tronco
Balançar para todos os lados.

Forçar a porta emperrada
Romper a janela travada
Entrar na história inventada.

Aperto de abraço, beijo de mulher amada
Sapato fora do cadarço
Golpe de cilada.

Mundo que se dissolve
Cordilheira que não se escala
Sabor de boca em brasa.

Fingir que o silêncio é paulada
Matar a mosca a facada
Roubar as penas das asas.

Reta no meio da curva
Barriga no meio do furo
Rabo de foguete no escuro.

Estava escrito na parede de casa
Ninguém apagou com a borracha
O dom que nem sempre se acha.