É certo que desfaço A matéria presa do retrocesso Transformo a cada passo Ordens escassas do universo Segue minha alma tranqüila Esquivando-se do arranhão profundo, Espinho espetado no osso Urgente jaula aberta E de fora permaneço sem remorso.
Márcio Jorge
ilustração: Marc Chagall
16 de nov. de 2008
Karel Appel
CONTORNO
Parece confuso Albergar os pensamentos mais límpidos Ando no nebuloso leito do preciso E o desgosto degolado É deveras escondido.
Peleja grata Por mais ambígua que pareça Sou alvo de mim mesmo Salvo, o que não vejo.
Márcio Jorge
2 de nov. de 2008
Salvador Dali
HORAS CERTAS
Visito os fatos aqui presentes Solto, ainda estou para gritar Buscar o caminho revolto Decifra as coisas guardadas no paiol do tempo de guerra santa.
Da varanda, visito as horas que precedem acontecimentos avulsos: A escuridão e o gozo, O amor degustado com requinte, Luas, constelações, delíquios e um céu de poesia, A selva e a barbárie, O jornal pingando sangue no corredor de casa, A correspondência violada, O cigarro, a cigarra, os arquivos empoeirados, A oferta da mão em falta!
Continua o tempo de sentimentos falecidos, A história conduzindo ao crime, Muros de concreto separando os líquens, Perdeu-se a simbiose? São horas certas para desaguar o rio sujo, o caldo sujo, a fonte indesejada.
Visito a cidade ao som das melodias: Assovios de balas, Cânticos de fiéis, Cantigas de roda, Funks de guetos, Reggaes de Marley, Choros de fome, Sinfonias de Bach, Batuques, batidas, bandolins...
Se é certo, Ou mero desatino Espalho-me pela madrugada Ser inocente, É viver sem destino.