
Roteiro: Julie Gavras e Arnaud Cathrine, baseado em livro de Domitilla Calamai.
MUNDO
Já se conhecia os soldados mucambos,
As balas perdidas,
O extermínio de anjos.
Já se conhecia o corpo blindado,
A chuva ácida,
O escudo queimado.
Sepultada a consciência,
Abrasivo é o alcance da náusea,
O inseto amiúde,
A muleta, a matilha, a muralha...
Já se conhecia o berro do bélico,
A camisa de força,
A hora da síncope.
Deslize, disfarce, desdém?
Calado o silêncio,
Zoeira é furo no feltro,
Hieróglifos em braille,
Uma rosa no asfalto.
Já se conhecia os templos sagrados,
O chão de esgoto,
O fundo do poço.
Já se conhecia as florestas nuas,
A súmula do jogo,
O sumo do boto.
Verdade, suborno, saudade?
Julgada a sentença,
Justa é a lâmina cravada no ócio,
O beijo na íris,
O cheiro, o cio, o sexo...
Já se conhecia o medo,
O transe do trauma,
A guerra, o plágio, o plano...
Trancada a porta,
Resta a lembrança,
A morte jurada,
A vulga esperança.
Já se conhecia o mundo
E o seu dia-a-dia...
Márcio Jorge
Salvador Dali
NA ILHA
Barco à vela
que me traz hoje
Um náufrago à deriva
numa ilha perdida,
Cheia de mim.
ERRÂNCIA
Na boca um chiclete vencido
Mascado com indiferença
Corrosivo sabor de hortelã
Ah! Ainda gruda este grude
Boca, palato, língua
(língua espremida)
Gruda.
Tudo se desfaz nessa tarde vazia
E um tiro a esmo atravessa a cidade
Com imensa contemplação.
PASSO A PASSO
Atenção,
Para o que quer dizer,
para o que quer saber,
Para o que quer querer,
para o que NÃO vai fazer!
Atenção,
Para qualquer buraco no chão!