26 de fev. de 2023

QUESTIONÁRIO

 

O que faz o amor

percorrer léguas

sem cansar?

 

O que faz o amor

nadar em zonas

de arrebentação?

 

O que faz o amor

de pé na ladeira?

 

O que faz?


SINTONIA

 

Aproveitei sua música

Para entender meu poema

A música, entendi

O poema, ainda não

 

                     Que sorte!


24 de fev. de 2023

AFOGADO

 

tempo

hora

desperta

 

fio

desenrola

o movimento

 

sílaba

sai

da boca

lasciva

 

corpo

afogado

de poesia

cai

no azul

do sonho

 

será

de nós

a música

alta

no peito?


23 de fev. de 2023

NOITE

 

Atrevo-me a descobrir

o espaço que comporta

a imensidão da noite

 

Aqui, um céu escuro

um coração escuro

e uma fome insaciável


13 de fev. de 2023

FOGUEIRA

 

Nesta hora

Quando trouxe

Um rio inteiro

Para nossa margem

Agarrei toda água  

Com mãos de concha

Entre os dedos

Foi-se a correnteza

Nesta hora

Quando desejou

Fazer o sol de abrigo

Percebi

Que fogueira

Já éramos ali.


DESMONTE

 

Pouca água

     Para encher a fonte

Pouco sonho

     Para encher a vida

 

Pouca água

      Pouca fonte

Pouca vida

 

E o sonho

      Quiçá um (dia)

Ainda

      Sobreviva



25 de dez. de 2022

PEREGRINO        

 

Escrevo-me

entre mundos

que há tempos

procuro desvendar

 

Leio-me

nos passos que deixei

marcados

em cada degrau

que construí (já foram 50)

 

Procuro-me

na linha do tempo

assim

como um felino

em novelo de lã


Encontro-me

mais antigo

com mãos de colher vento

e pés de subir colina

 

Aprendo-me

ansiosamente

até o poema

chegar


1 de set. de 2022

 POEMA EM CONSTRUÇÃO

 

 Com que verso começarás o poema?

 

Pergunto com o cinismo

de quem sabe o que te roubou

se já sentiu falta

das palavras que perdeste no beijo

melhor não deixar a noite acabar

tenho frases espalhadas na boca.

 

Com que verso terminarás o poema?

 


22 de ago. de 2022

SEMÂNTICA                  

 

Entre palavras

 

Ofereço-te:

amalgamarCIO

 

Serve?

 

TERAPIA

 

É difícil refazer

as arestas deste mundo

imperfeito

 

Movo-me parado

na cela dos dias

 

Torço pela luz

que vem do sol

do poste

ou dos vagalumes


Há um erro

para cada acerto

encontrado

 

Há um divã

para cada angustia

que tece a mente

 

Há de existir também

um veleiro

que transporte para longe

a solidão 

de um náufrago


OLHOS FECHADOS

 

Doem-me os olhos

não foi cisco

que entrou

nem a secura habitual

da síndrome

 

Hoje o colírio

não bastará

só o apagar

do dia


20 de ago. de 2022

Transbordamentos de um corpo-mar

 

Eu sei

esse mar

que transborda

da tua pele

tem cheiro de agora


Já não basta o verde

o sal

a onda

que desagua

na brancura

da areia

 

Eu sei

esse mar

que transborda

da tua pele

já chegaste

até aqui