POEMA EM CONSTRUÇÃO
Pergunto com o cinismo
de quem sabe o que te roubou
se já sentiu falta
das palavras que perdeste no beijo
melhor não deixar a noite acabar
tenho frases espalhadas na boca.
Com que verso terminarás o poema?
TERAPIA
É difícil refazer
as arestas deste mundo
imperfeito
Movo-me parado
na cela dos dias
Torço pela luz
que vem do sol
do poste
ou dos vagalumes
Há um erro
para cada acerto
encontrado
Há um divã
para cada angustia
que tece a mente
Há de existir também
um veleiro
que transporte para longe
a solidão
de um náufrago
RELÓGIO
Na urgência do tempo
descobri nas pedras
o mistério da pureza
cometi os erros do futuro
atravessei a fronteira
do mapa invertido
Na urgência do tempo
mergulhei na onda de sal
colhi as pétalas
que pularam do caos
enterrei o último espinho
da rosa
Na urgência do tempo
não percebi quem olhava comigo
mais um pôr do sol
POEMA PARA
UMA NOITE DE INVERNO
I
Era uma noite de inverno
rua de mão única
e o pensamento também era único:
procurar a pista certa
para o desfecho final!
II
Na verdade
queria encontrá-la de novo
saber como apareceu e fugiu
em meio aos destroços que havia lhe deixado
nada tinha nas mãos
nem sabia o que iria dizer
caso a encontrasse naquela rua novamente.
III
Já era tarde para manter a esperança
mas o tempo pouco importava
na história que se construía
então, apurou a mirada
e finalmente sentiu um vulto
que passava por ali.
IV
O que iria fazer afinal
se não tinha sequer palavras para explicar
o quanto desejava aquele reencontro?
V
Foi se aproximando devagar
Assustou com os ratos fuçando sacos de lixo
suou frio, as pernas tremeram
mas na hora derradeira
lembrou que sabia de cor
todos os versos de um poema de Leminski.