SONHO
Rasga
no céu
o canto
livre
de pássaro
meu peito
abre fenda
e deixa
existir
um coração
fora
do ninho
Sustentável
sonho
escorre
pelo dia
vontade
fixa
de ser
vento
no silêncio
das folhas
e do poente
ALPINISTA
Ao fim da noite
o corpo segue como um alpinista
das grandes alturas
a carne gelada sangra no cume
o gelo ainda não derreteu
subir embriagado de luz
pareceu uma suave aventura
se ver lá embaixo novamente
um ríspido equívoco.
SER POEMA
Quem me dera saber do poema
o que ele já sabe de mim
Quem me dera fazer do poema
eternidades
IMPROVISO
Há sempre o momento certo de saltar.
Como saber se o certo momento chegou
quando não se tem a certeza
do tempo claro
nem a promessa
de abrir o paraquedas?
É só mirar na empáfia
daquele que escreve o roteiro
mas prefere o improviso.
ALTITUDE
Deita-me assim
como quem flutua em ondas de mar
Ama-me então
no trânsito inconstante das estrelas
Acredito ser montanha
agora descobre tuas asas
PARA FORA
O impulso arremessa o medo
de ser impuro
para os puros de conduta
Fora da destreza,
do pulso cambaleante e
do olhar leviano
Um coração bate soberbo,
límpido
e vermelho
QUESTIONÁRIO
O que faz o amor
percorrer léguas
sem cansar?
nadar em zonas
de arrebentação?
de pé na ladeira?
O que faz?
SINTONIA
Aproveitei sua música
Para entender meu poema
A música, entendi
O poema, ainda não
Que sorte!
AFOGADO
tempo
hora
desperta
fio
desenrola
o movimento
sílaba
sai
da boca
lasciva
corpo
afogado
de poesia
cai
no azul
do sonho
será
de nós
a música
alta
no peito?
NOITE
Atrevo-me a descobrir
o espaço que comporta
a imensidão da noite
Aqui, um céu escuro
um coração escuro
e uma fome insaciável
FOGUEIRA
Nesta hora
Quando trouxe
Um rio inteiro
Para nossa margem
Agarrei toda água
Com mãos de concha
Entre os dedos
Foi-se a correnteza
Quando desejou
Fazer o sol de abrigo
Percebi
Que fogueira
Já éramos ali.
DESMONTE
Pouca água
Para encher a fonte
Pouco sonho
Para encher a vida
Pouca fonte
Pouca vida
E o sonho
Quiçá um (dia)
Ainda
Sobreviva