30 de mar. de 2024

CAMINHO SEM VOLTA

 

Debrucei

sobre a manhã                                        

que chegava

para ouvir tua voz

renascer

 

Se me olhas

viro fogo farto

 

Se me queres

sou caminho

sem volta


UM LIVRO SOBRE A MESA

 

Um espaço

um medo

um dia sem firmeza

ardo-me

como corpo consumido

pelas chamas

de si

 

Uma porta

uma luz

um livro sobre a mesa

tomara

que sejam seus

os versos

que leio

agora


28 de mar. de 2024

SÓ OS BICHOS SÃO ETERNOS

 

No abraço do sol acordar

entre folhas e fontes de cristal    

 

Os pássaros se aconchegam na árvore

do tempo

 

Os peixes conversam no rio

sobre asas de borboletas

 

O brilho dos olhos felinos

segue a trilha do mato bendito

 

O silêncio alinhava as manhãs

dos jabutis

 

Desconfio que só os bichos

são eternos


DIALETO

 

Nosso dialeto

não tem tradução

só você entende

o que não falo

só eu entendo

a sua respiração

 

Ficamos lado a lado

num livro de poemas 


QUINTAL

 

Leva nas mãos  

a urgência

de desvendar

o tempo

 

Calmarias

tempestades

apreço pela poesia

 

Nesse instante

seu quintal

é toda palavra

que segue

as ruas do mar

 

Leva nas mãos

um abismo profundo

perigoso mistério

de quedas provisórias


26 de dez. de 2023

PAIOL

 

Com um mapa nas mãos

sentiu que alcançaria breve

o paiol de suas incertezas

 

Em pleno dia de sol

os pensamentos permaneceram ali

trancados de medo

 

Foi observando

o quanto se afastava de si

ao deixar a chave escondida

 

Como pássaro em armadilha

debateu-se sozinho

até descobrir o mundo

 

Seguiu intenso e feliz

na frente um farol

e um estranho desejo de voar


O POEMA E A PEDRA

 

No dia

em que as horas passaram

sem vida

viu crescer o poema

na pedra

ambiente inóspito

para as palavras

 

O dia morreu

 

O poema e a pedra

vivos

continuam


19 de dez. de 2023

METAMORFOSE

 

Ora ave

ora gente

transmutar

de um ser

para o outro

faz teu corpo

ondular

na exuberância

do céu

 

Pertinho

das águas

quis ser peixe

também

talvez se vestir

de sereia

para cantar

Odoyá

 

Seu vestido de ave

gente

peixe

rodou por inteiro

e encheu

de rio

o seu peito

de mar


UM BRINDE

 

Há dias em que não sabemos

plantar nossa própria luz

 

Há dias em que só colhemos noite

no vão do peito arredio

 

Há dias em que as palavras

não mais se encaixam

como peças de um quebra-cabeça

 

Há dias em que construímos muros

reviramos casas

abraçamos dores

 

Nesses dias recomendo

se vestir de brisa

criar fôlego

e brindar ao silêncio

 

Há dias em que a vida já não basta


ONDE ESTOU?

 

Olho-me

aqui dentro

como folhas

debruçadas

na pele áspera

do chão

 

Ser fervura

onde o frio congela

a mente

e o vento ameniza

o coração

 

Onde estou?

olho-me

e já não me vejo

aqui

 

15 de dez. de 2023

SENTENÇA

 

Espero-te

até quando

for possível

contar o tempo

 

Espero-te

até a saudade

virar cinzas

até a palavra

desmontar o refúgio

e o poema

não se deitar

ao meu lado

 

Espero-te

no lugar

que regressas

para matar

tua sede

e respirar

o puro ar

que te entrego

 

Espero-te

onde o amor seja

a sentença

e você, a condenada    


11 de dez. de 2023

VENTANIAS

 

Tenho seguido ventanias

na solidez do chão

deslizo sobre as próprias pegadas

 

No riso do céu

flutuo imenso

e escancaro toda manhã

que me oferta o sol

 

Para espalhar milagres

é preciso ter asas

de anjo