GUERRA
Existe uma dor
empedrada
no território invadido.
Existe uma dor
no oponente
que destrói o inimigo.
Existe uma dor
na infame batalha
do ódio contra o ódio.
Ainda existe uma dor
um céu impuro
um chão impróprio
um alerta de morte
Por que?
POUSO
Me escondi
neste poema
ainda não sei bem
o porquê.
Comecei procurando
uma palavra
que coubesse
meu corpo amontoado
de inconstâncias
achei baú
vocábulo pequeno
mas que comporta
um tanto de coisas.
Não satisfeito
revirei os livros de poesia
e cheguei ao topo
de um arranha-céu
sim, uma palavra composta
para cortar as nuvens
e acomodar o poço
das agonias.
Acabei escrevendo
também o que não desejava
a palavra derradeira
foi pouso
com se fosse possível
cortar as asas
e esquecer
o voo.
Me escondi
neste poema
incompleto
e fui dormir.
UMA MANHÃ
Acordou cedo
Mas ainda tinha sinais de ontem
O hoje já havia chegado
e os
pensamentos eram antigos
Perguntou-se com aflição:
- Para
que calendário separando os dias?
Tudo parece um dia só,
um tempo só,
uma
vida só!
Percebeu que não adiantava
mudar o dia
Sua história não existia sem passado
E tampouco continuaria existindo
Sem escrever as páginas do presente
(e o futuro, pra que serve mesmo?)
Então, resolveu levantar
de
bate-pronto
Como quem leva um susto
em plena segunda-feira
Escovou os dentes,
tomou um banho frio,
leu cinco
poemas da Ana Martins Marques
e saiu sem tomar café
A rua era a mesma
o sol
era o mesmo
as contas para pagar também
Só o que parecia diferente
Era sua consciência
de que nada havia mudado.