24 de jul. de 2021

 DESCOBERTA


 

 

 

 

 

 

O que em mim

nasce raiz

escapa pelas ranhuras do peito

minha palavra-terra

sangra na solidez dissolvida.

 

O que em mim

nasce folha

avança pelo corpo do céu

minha palavra-vulcão

espalha versos em profundezas.   

 

O que em mim

nasce flor

transforma o deserto de dentro

minha palavra-silêncio

repousa no êxtase das lágrimas.     

 

...

 

Ilustração: Charles Camoin

18 de jul. de 2021

SAGRADO








Pela chuva

desvendado,

o caminho

de vagalumes

é perene

correnteza

de rio

soa

música

de primavera

assim

como o canto

de pássaros

em revoada

as folhas

inquilinas

do caule

secular

tranquilas

bailam

no vento

esse idioma árvore

foi traduzido

aqui

faz tempo ...   

 

...

 

Ilustração: Paul Cézanne


13 de jul. de 2021

LUAR





 

 

 

 

 

Repara  

a rua vazia

as janelas cerradas

os bardos solitários

aguardando    

findar

o crepúsculo

 

Repara

o silêncio

não há carros

buzinas

sirenes

nem lâmpadas

piscando

em outdoors

 

Repara

o cachorro

também não late

o grito

não invade

zumbido

não existe

 

Repara

a última gota

de chuva

escorrendo

pelo chão

o escuro

da noite

despedindo-se

do dia

 

Repara

a rua vazia

não há entradas

não há mais gente

não há palavras

 

Tudo pra você

reparar

que ainda

há lua

neste lugar.  

  

...

 

Ilustração: Paul Klee


CORRENTEZAS








 

Cresci

no tempo

que moldou

pegadas

para tornar

tranquilo

o caminho

das correntezas

segui o vento

que dobrou

a curva

sai do mapa

perdi a bússola

no frio, viajei

onde estará

meu cobertor?  

 

...

 

Ilustração: Van Gogh

 

10 de mai. de 2021

VOO SOLO



 

 

 

 

É tempo de voar para dentro

A procura do que ainda

Não foi descoberto

 

Um voo sem asa

Sem pouso  

Sem direção

 

Para decolar é preciso

Ventar-se!

 

Mergulhar o corpo inteiro

Nas profundas entranhas

Do próprio deserto

 

Escutar o eco da alma

Numa viagem cansada

De anoitecer

 

É como um relampejo

Na janela embaçada

Ou gritos de mar

Encharcando um barco à deriva

 

Parece perigoso

Isso de querer sangrar em silêncio

De remover as pedras

Com um sopro sutil

 

Cabem também nesse voo

Chuva de temporal

Turbulências em profusão

E a luz amena de outono

 

É tempo de voar para dentro

Mas, é sempre bom lembrar,

 

Para decolar é preciso

Ventar-se!  

 

...

 

Ilustração: Aldemir Martins