15 de ago. de 2010

PAPO DE CINEMA

Era década de 60 e o povo brasileiro vivia o clima hostil da ditadura militar, que em muitas vezes, limitou com truculência as produções culturais no Brasil. Foi nesse instante de luta ideológica e efervescência política que o país conheceu o auge da era dos festivais de música e apresentou alguns dos artistas considerados de fundamental importância para a formação da Música Popular Brasileira.

O documentário "Uma Noite em 67", dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, mostra uma disputa empolgante entre novos compositores e intérpretes da MPB que provocou emoções fortes numa platéia eufórica, preparada para vaiar ou aplaudir os artistas com a mesma intensidade. O festival de 1967 revelou canções que se tornaram históricas na galeria dos festivais organizados pela TV Record em São Paulo. O vencedor daquela tão esperada final foi Edu Lobo com "Ponteio". Em segundo lugar ficou a canção "Domingo no Parque", interpretada por Gilberto Gil e com a participação especialíssima do grupo Os Mutantes. Chico Buarque de Hollanda foi acompanhado pelos músicos do MPB 4 na interpretação da música "Roda Viva", que conquistou o terceiro lugar. Caetano Veloso cantando "Alegria, Alegria" provocou vaias do público, mas antes do final de sua apresentação, o baiano reverteu a situação desfavorável, conseguindo a quarta colocação da noite e o reconhecimento efusivo da platéia. Roberto Carlos também participou da festa e chegou ao quinto lugar com o samba "Maria, Carnaval e Cinzas". Naquele ambiente de muita competição, o drama maior foi vivido pelo cantor Sérgio Ricardo que marcou o seu destino no festival ao destruir o violão e atirá-lo ao público depois de ser insistentemente vaiado pela canção "Beto Bom de Bola".

O filme alterna imagens da época, inclusive mostrando as apresentações principais na íntegra, com depoimentos inéditos dos intérpretes e de algumas testemunhas importantes como o jornalista Sérgio Cabral (um dos jurados) e os produtores culturais Solano Ribeiro, Zuza Homem de Melo e Nélson Mota. Aquele momento inesquecível para o cenário musical brasileiro proporcionou uma verdadeira revolução cultural no final dos anos 60, que se propagou com o fortalecimento da MPB, o surgimento da Tropicália, as inclusões da música pop internacional e a explosão das diversas manifestações artísticas regionais. Assistir "Uma Noite em 67" é uma bela recordação para quem viveu aqueles momentos inestimáveis e um aprendizado valioso para as novas gerações, pois mais do que um registro musical, trata-se de uma viagem histórica, ideológica, social e política de uma época de grande relevância para o nosso país.
texto: Márcio Jorge.
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Ficha Técnica
Título: Uma Noite em 67
Ano: 2009
País: Brasil
Língua: Português
Gênero: Documentário
Direção e Roteiro: Renato Terra e Ricardo Calil
Elenco: Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo, Gilberto Gil, Roberto Carlos e Sérgio Ricardo
Duração: 105 min.
Censura: Livre


13 de jul. de 2010

Paul Klee


AFINIDADES

Dentro de cada louco humano tolo
Habita não somente um âmago
Transparecido pela retina ofuscante
De um olhar
Há no disparar de cada coração
Um céu nublado,
Uma ponte entre a luz do querer
E o desbotar do adormecido sonho.

Dentro de cada louco humano tolo
Lembraças de ontem
Em caminhos percorridos com ternura,
Laçados pela neblina que envolve
Afinidades tantas!
Entre loucos transeuntes
Na solidão de mais um dia
Entre cegos humanos
(não reconhecem o espelho partido)
E entre tolos inocentes
que de perto vivem.

29 de mai. de 2010

Camille Pissaro

PAISAGEM INVENTADA

Luz de candeia acendeu
No mato arrepio de vento
E a voz do sossego sussurrou no ouvido-martelo
O rouxinol nem sequer apareceu
Voou sorrateiro,
Apaziguando quase tudo
Que pudesse estar em pranto
Leve, muito leve
Foi-se o pensamento
Numa folha amarelada
Em contraste com o solo enegrecido
No cume de um outeiro
Comovo-me com a água
Que escorre no leito da paisagem inventada
Quem dera ser o pó do caminho
Figura cravada no barro
De manhãzinha
Entre raios de sol
E passos de formiguinhas
Não sei o que penso
Deito na relva
E viro pedra novamente.

3 de mai. de 2010

foto: Márcio Jorge


COMPOSIÇÃO

Quero estar
No imaginável limite
Entre o céu e o mar,
Tragando o mistério
E o costume de segui-lo.

Quero sentir
De cada verso escrito
Um devasso mundo contido,
Atravessando o avesso do verso
Em rimas sólidas, sem disfarce!

Enquanto confesso,
Viajo calmamente em cidades caóticas
De fendas profundas e deuses eternos.

Quero querer
De vez em quando o acaso
Abusar do gozo insano
Em plena tarde de outono
Ou em plena tarde qualquer.

É preciso reinventar o sorriso
E comemorar a madrugada vazia
Como são aqueles
Que fazem do seu dia
A promessa de ontem.

Quero colher
Os pedaços que me faltam
Absorvendo o puro reflexo
Mesmo que pareça complexo
Tragar o próprio mistério.

É preciso continuar querendo
Flores de todos os jardins
Espatifando os imundos espinhos
Esses daninhos,
Fel do clã
que se compôs.

29 de mar. de 2010

Maurice de Vlaminck



PASSOS NA CONTRAMÃO

... E de leve perdi o riso
Beijei a flor
Ao sentir a brisa
Afinal,
De quem será a brisa?
Tal como a nascente
Parte a sombra de quem não mais existe.

O tempo e o homem
Comovem,
Suas queixas desvalidas
São tão novas quanto à bruta pedra polida.

Dentro da gruta infinita
Escondo esta alma de bardo
Ou apenas um semblante estarrecido,
Ingênuo
E por que não alegre dizer?
Sério brinquedo
Acima de um abismo.

9 de mar. de 2010

André Derain






















VÍCIO DI VERSOS

Vento sopra
Pedra rola
Ferro feri
Aqui
E ali.

Chuva cai
Traz o cheiro
Cheiro de pólvora
Cheiro de terra molhada,
Um cheiro outro qualquer.

Pena voa,
Que pena!
Bate no muro
Vira amargura
Aqui
E ali.

O lírio canta
A lira toca
Trova bonita
"Vício di versos"
delírio, delírio...

Vida passa
Cheia
Ou vazia
Prato raso
Raso dia
Luz apaga
Vive o breu
E sobre a mesa escura
Um papel rabiscado
Com palavras vadias:

Sonho,

Luta,

Amor,

Armadilha,

Tesouro,

Jardim,

Semente,

Soneto,

Promessa,

Corrente,

Beco,

Berro,

Alma,

Tudo.

Assim,
Ainda escreve
O poeta.

25 de jan. de 2010

Piet Mondrian
















NOSTALGIA VERDE

Bela como era
Não mais transita
Onde habita
Asas abertas,
Coloridas,
Expostas
E tantas vezes despidas
Fechadas na liberdade roubada
Pelo rústico instinto
Que penetra,
Tritura,
Afoga...

Lágrimas escorridas
Sangue na seiva
Nos velhos troncos
Velhas testemunhas...

Das queimadas,
Só se for a folha seca
Esturricada,
Atirada ao solo ardente
Seca,
Pelo sol seco.

Das caçadas,
Só se for a natural seleção
Naturalmente pura,
Discreta parte do reino ferido
Mendigando socorro,
Rastejando pelo que resta.

E o verde virou nostalgia
Como se fosse dezembro
Último dia,
Último sonho,
Fim de festa.

30 de dez. de 2009

Angeli


















FECHADO PARA BALANÇO!

O tempo passa e a história sempre se repete. Uns aumentam um pouquinho, outros inventam um tanto, porém ainda existem aqueles que descrevem exatamente as ocorrências do ano findado. Todos fecham para balanço e assim começam as reflexões sobre tudo o que já foi e não foi realizado. Êta choradeira!!!

Para não provocar avexamento, aviso logo aos navegantes que dessa vez vou fazer diferente. Não quero enumerar os meus descontentos, nem estender um tapete vermelho para orgulhosamente despejar as minhas conquistas, NÃO QUERO! Não vou agradecer, muito menos pedir alguma graça, quero apenas relembrar uma única coisa: estou vivo! Então, o que devo dizer ao constatar que continuo na singela “obrigação” de representar a mesma personagem da nobre condição humana? Antes que eu questionasse o sentido desta constatação, um livro do Pessoa caiu sobre minha cabeça e me trouxe a verdadeira importância daquilo que começara a pensar.

É sim! Claro que a poesia é um motivo que me faz lembrar o quanto estou vivo, assim como o mar, o sol, a lua, a chuva, o amor, a música, os bichos, os amigos, a família, o sofrimento, o açaí com morango, etc, etc, etc... Mesmo com tantos motivos “vivos”, o fio que conduz o caminho parece inatingível. Sei que temos medo e o sorriso já não se faz presente como outrora. O mundo está tão complicado, que perguntei a um lindo sofrê que pousou em minha varanda, porque tanta criança sofre, pois isso deveria ser coisa só de adulto. O pobre passarinho não soube me responder e voou como quem foge do assunto indesejado. Já disse que o mundo não está para brincadeira e ser otimista virou uma questão de heroísmo. Mas, pode parar tudo!!! Havia dito que não gastaria palavras para desafogar lamentos, não foi mesmo? Por isso, no amanhecer de mais um ano, vamos buscar no amor, a semente de tudo aquilo que nos alimenta!

Como não vou fechar para balanço, quero simplesmente dizer mais uma vez: CONTINUO VIVO!


Márcio Jorge.

9 de nov. de 2009

foto: Márcio Jorge


QUASE...

Queria sua vida
Por quase uma eternidade
Não fingi,
O que o filme revelara
Por quase todo tempo.

Queria uma história inacabada
De amor profundo
Sublime desabrochar de rosa
Em coragem ilimitada
Ao doar-se por completo
Equívoco passageiro
Certeza quase perfeita,
Quase sem culpa.



Este trabalho foi publicado também no blog da exposição "Cuide de Você" da artista plástica francesa Sophie Calle. (blog.sophiecalle.com.br)

2 de nov. de 2009

Van Gogh

ELO

Em vaga manhã toada,
A vista nua redescobre
O azul do céu de estrela única,
Brilhando comovente
No desejo da carícia plena.

Talhar a forma perfeita
Faz palpitar o menino,
Aflito,
Pela delicada ponta de estrela
Nos seus braços franzinos,
A pedir um afago suave
Envolto em rosa
Em canto que ecoa distante
No orgasmo da noite bela.

Alteiam os espasmos de êxtase
E as minguas de ciúme atropelam o menino
Displicente sobre a areia fina,
Adormece repleto
No seio ímpar.

Espuma morna do corpo infinito
Braços do mar a trazer o destino
Em verso, em prosa, em canção
No risco da débil tormenta
Sem sepultar o coração.

Abre-se a ternura
Em pétalas túrgidas
Soltas pelo ar de paixão
Profundo extravio,
Entornando o orvalho atrevido
Aonde caminha o amante menino
Sob o lampejo da estrela única.

13 de out. de 2009

Georges Rouault


PONTO FINAL

Aqui o vento não guia
O sopro não arrepia
O santo padece.

Aqui o verso não rima
O banjo não toca
O cárcere cativa.

Aqui o beijo não é na boca
A língua não lambe
O mosquito agradece.

Aqui não há vagas,
Não há luas,
Não é o começo de nada.

Aqui o verbo não auxilia
A sílaba é única,
A palavra atrofia.



28 de set. de 2009

Cândido Portinari

METAVORAZ

Fiz da hora “H”
Um raro instante
E de cada segundo que passou
Um infinito de portas entreabertas
Eterna meta,
Não só de um poeta!
Eterna meta,
Vida pouca!

Fiz de mim
Um sujeito assim calado
A procura de metas e metáforas
Eternos passos
Afogando o medo de não ter da meta:
A metade!
Que seja metáfora enquanto dure
E que seja arte se for eterna
(qual será a meta?)

Fiz da palavra
Um refúgio,
Entre versos que teimam
Em vencer o tema
Consumindo-me até o fim

Fiz de mim
Um sujeito assim romântico
Eterno estrangeiro
Fora da meta.


Escrevi este poema na adolescência após ouvir pela primeira vez a canção ” Metáfora” de Gilberto Gil.