11 de abr. de 2009


REINO

poema dedicado a Fernando Pessoa

Coroai-me dessa lua,
Que agora assim
Transborda nua
Acima da volúpia de olhos
(também nus).
Fatal noite de intensa presença
Entorpecentemente a sós
Com a bela lua nua.

E pelas ruas estão os bares
E pelos bares, outras criaturas
Embriagando a alma de seus prazeres
Mas dentro deste quarto tranquilo
Voga a vaga de quem percebe
Que a noite está cheia
Cheia de lua
E isso basta!

3 de abr. de 2009

Uber Alves

SOMBRAS

Atrás de mim,
Um espelho
Refletindo aquela sombra
A perseguir aqueles dias...

Na minha frente,
Um profeta
A prever aquele espelho
Preso na porta ao longe
Agora,
Quem com a brisa penetra?
Vem,
Quem?

Oh, sombra indiscreta!

21 de mar. de 2009

                                               
                                              
    Ilustração: Diego Rivera   



ABALO 

Envolto em queixa

Não fui hoje o trigo,

Nem o joio

Não fui o acinte,

Nem a ferrugem da manhã sem graça

Lá fora, parece escuro

TUDO!

Aqui, ainda vaga o vagalume!

 

Luz pouca,

Tempo vasto

    E o soluço constante!


9 de mar. de 2009

  ESTRADO

Emil Nolde 


Quem dera,

Fosse verdade a quimera!

A ruga que franze a testa,

esmoreceria breve.

 

No estrado erguido pelo descontento

Segue a vida mal servida

Caminho de chuvas e ventos           

Desfazendo a longa marcha

do pensamento.

 

No estrado erguido pelo descontento

Segue a vida dividida

E o tempo tirano a perseguir

No corpo a corpo dos dias

O amor resistente,

Que resiste,

em fortaleza.

 

Quem dera,

Fosse verdade a quimera!

Nada desbotaria o lúdico

E o tempo tirano

Não resgataria o medo

de um final verecundo.


3 de mar. de 2009

foto: Pierre Verger

OS BARCOS

Na sóbria manhã que nasce
Oscilam as pálpebras alertas...

Os barcos,
Dentro dos meus olhos de náufrago
Também oscilam,
no espelho de águas infinitas.

A esmo conduzo o meu corpo
Ao porto clemente:
Oh, navegantes barcos perdidos!
Deslizam pelo mar revolto
Esgotando minha sede oscilante,
Como pálpebras,
Oscilante,
Como os barcos!

3 de fev. de 2009

Almada Negreiros


AMOR ABSOLUTO

Ferveu a inspiração,
Surgida do cálido amor desnudo
E as palavras escorrem sobre o papel quente
de tanto amor.

Os versos espalham o sentimento exalado
Então, o que ainda restou?
Restou o seu poder absoluto
Que amalgama corpos afins
Fenecendo a certeza equívoca
De que não há mais tempo
para amar.


"dedicado a todos que vivem ou já viveram um grande amor."

3 de jan. de 2009


ENTRE VARIÁVEIS


Somos sós,
Dentro da multidão
E no intruso vazio que nos cerca

Somos livres,
Atados pelo nó apertado
E pela palavra concreta
Que já não assola o medo

Somos inteiros,
Um caso a parte
Parte partida ao meio
Em cacos perdidos e feridas vivas

Somos guerra,
Um paraíso confuso
Então,
Cadê o pecado?
Eu digo
Juro que confesso
Sem Deus
E sem profeta
Declamo agora:


Somos arte!


foto e texto: Márcio Jorge

14 de dez. de 2008

MANDENGOS 









Havia (só) uma noite de lua minguante

Mínguas de lua para mim

Para que?  

 

Havia um desejo secreto sob aquele sorriso discreto  

Onde estão as estrelas da noite minguante?   

As mínguas esparramam-se como pó

Em fornalhas, 

apodrecem as miudezas...

 

Havia uma noite de lua minguante,

Crescente no sentido vário

Rara gota de esperança 

Para que?

Para despejar o pó em relicário descoberto

Para transpor caminhos, vales,

selvas e mandengos...    


Havia uma história invertida

Um recado, 

uma ponte levando para o mesmo lado.                  

          

...

 Ilustração: Camile Pissarro


1 de dez. de 2008













Para quem curte um programa alternativo, uma boa opção é aproveitar as atrações do VIII Mercado Cultural que acontece a partir do dia 03/12 em Salvador. Vou conferir os shows de Rajery e América Contemporânea no sábado às 21:00h e os de André Abujamra e Fernanda Takai no domingo às 20:00h, todos no palco do TCA. Dê uma olhada na programação musical:

03 de Dezembro de 2008 (Quarta-Feira)

Horário
Atrações
Local da Apresentação
Estado/ País

21h
Letieres Leite & Orquestra Rumpilez
Sala Principal - TCA
Bahia
PercaDu
Sala Principal - TCA
Israel

04 de Dezembro de 2008 (Quinta-Feira)

Horário
Atrações
Local da Apresentação
Estado/ País

18h
Alejandro Vargas Cuarteto
Sala do Coro - TCA
Cuba
19h
Silent Disco com DJ Nico
Foyer do TCA
Holanda
21h
C4
Sala Principal - TCA
Venezuela
Chico Pinheiro
Sala Principal - TCA
São Paulo

05 de Dezembro de 2008 (Sexta-Feira)

Horário
Atrações
Local da Apresentação
Estado/ País

18h
Opanijé
Sala do Coro - TCA
Bahia
Emerson Taquari
21h
Sons da Catalunha: Miquel Gil
Sala Principal - TCA
Catalunha
Jards Macalé
Sala Principal - TCA
Rio de Janeiro

06 de Dezembro de 2008 (Sábado)

Horário
Atrações
Local da Apresentação
Estado/ País

15h
Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta
Praça Pedro Archanjo - Pelourinho
Bahia
Eletropercussiva
Kissukilas
La Revuelta
Colômbia
21h
Rajery
Sala Principal - TCA
Madagascar
21h
America Contemporânea: Álvaro MontenegroAquiles Báez Benjamin Taubkin Ari Colares Lula AlencarSibaJoão Taubkin Lucia PulidoLucho Solar
Sala Principal - TCA
BolíviaVenezuelaSão PauloSão PauloRNPernambucoSão PauloColômbiaPeru

07 de Dezembro de 2008 (Domingo)

Horário
Atrações
Local da Apresentação
Estado/ País

16h
Sons da Catalunha: Roger Mas
Sala do Coro - TCA
Catalunha
20h
André Abujamra
Sala Principal - TCA
São Paulo
Fernanda Takai
Sala Principal - TCA
Minas Gerais
___________________________________________

Para ver a programação completa, acesse o site do evento: http://www.mercadocultural.org/ .

30 de nov. de 2008


DESVIO

É certo que desfaço
A matéria presa do retrocesso
Transformo a cada passo
Ordens escassas do universo
Segue minha alma tranqüila
Esquivando-se do arranhão profundo,
Espinho espetado no osso
Urgente jaula aberta


E de fora permaneço
sem remorso.

Márcio Jorge
ilustração: Marc Chagall

16 de nov. de 2008

Karel Appel

CONTORNO

Parece confuso
Albergar os pensamentos mais límpidos
Ando no nebuloso leito do preciso
E o desgosto degolado
É deveras escondido.

Peleja grata
Por mais ambígua que pareça
Sou alvo de mim mesmo
Salvo, o que não vejo.


Márcio Jorge


2 de nov. de 2008

Salvador Dali

HORAS CERTAS

Visito os fatos aqui presentes
Solto, ainda estou para gritar
Buscar o caminho revolto
Decifra as coisas guardadas
no paiol do tempo de guerra santa.

Da varanda, visito as horas que precedem
acontecimentos avulsos:


A escuridão e o gozo,
O amor degustado com requinte,
Luas, constelações, delíquios e um céu de poesia,
A selva e a barbárie,
O jornal pingando sangue no corredor de casa,
A correspondência violada,
O cigarro, a cigarra, os arquivos empoeirados,
A oferta da mão em falta!

Continua o tempo de sentimentos falecidos,
A história conduzindo ao crime,
Muros de concreto separando os líquens,
Perdeu-se a simbiose?
São horas certas para desaguar o rio sujo,
o caldo sujo, a fonte indesejada.


Visito a cidade ao som das melodias:
Assovios de balas,
Cânticos de fiéis,
Cantigas de roda,
Funks de guetos,
Reggaes de Marley,
Choros de fome,
Sinfonias de Bach,
Batuques, batidas, bandolins...

Se é certo,
Ou mero desatino
Espalho-me pela madrugada
Ser inocente,
É viver sem destino.

Márcio Jorge