30 de nov. de 2008


DESVIO

É certo que desfaço
A matéria presa do retrocesso
Transformo a cada passo
Ordens escassas do universo
Segue minha alma tranqüila
Esquivando-se do arranhão profundo,
Espinho espetado no osso
Urgente jaula aberta


E de fora permaneço
sem remorso.

Márcio Jorge
ilustração: Marc Chagall

16 de nov. de 2008

Karel Appel

CONTORNO

Parece confuso
Albergar os pensamentos mais límpidos
Ando no nebuloso leito do preciso
E o desgosto degolado
É deveras escondido.

Peleja grata
Por mais ambígua que pareça
Sou alvo de mim mesmo
Salvo, o que não vejo.


Márcio Jorge


2 de nov. de 2008

Salvador Dali

HORAS CERTAS

Visito os fatos aqui presentes
Solto, ainda estou para gritar
Buscar o caminho revolto
Decifra as coisas guardadas
no paiol do tempo de guerra santa.

Da varanda, visito as horas que precedem
acontecimentos avulsos:


A escuridão e o gozo,
O amor degustado com requinte,
Luas, constelações, delíquios e um céu de poesia,
A selva e a barbárie,
O jornal pingando sangue no corredor de casa,
A correspondência violada,
O cigarro, a cigarra, os arquivos empoeirados,
A oferta da mão em falta!

Continua o tempo de sentimentos falecidos,
A história conduzindo ao crime,
Muros de concreto separando os líquens,
Perdeu-se a simbiose?
São horas certas para desaguar o rio sujo,
o caldo sujo, a fonte indesejada.


Visito a cidade ao som das melodias:
Assovios de balas,
Cânticos de fiéis,
Cantigas de roda,
Funks de guetos,
Reggaes de Marley,
Choros de fome,
Sinfonias de Bach,
Batuques, batidas, bandolins...

Se é certo,
Ou mero desatino
Espalho-me pela madrugada
Ser inocente,
É viver sem destino.

Márcio Jorge

19 de out. de 2008

OUTRA VEZ

Amanheceu,
Como tão livre sonho
Estende-se até agora?
Foi-se então
Como já fora
E como já voltara
É realista o fim surreal
Fecho as janelas
Fortes e corajosas
Ultrajam a luz do sol
E não deixam refletir
O fim nem o começo
É provocante
É indecente

É apenas outra vez...



texto: Márcio Jorge
ilustração: Joan Miró


7 de out. de 2008


AÇOITE

Cândido Portinari


A noite extravasa o meu verso,
A ira trafega em veias suntuosas.

A palavra invade o meu silêncio
E os capilares ordenham o sangue
Em cada esquina que se ouve as baionetas
Ou serão meros torpedos?
Quem apostará?

O açoite não veio da noite
Mas de um dia claro

Por demais claro...

Márcio Jorge

28 de set. de 2008

Paul Cézanne

OBSERVANDO

Na terra
Criou-se a raiz
Surgiu um tronco cascudo
Com folhas, flores e frutos
Quem percebeu?
Será que só eu?

No céu
Juntaram-se as nuvens
Caiu a chuva
Que molhou o terreno esquecido
Onde rola a roda
Pelo leito do rio seco
Quem percebeu?
Será que só eu?


Márcio Jorge


21 de set. de 2008

OH, MINAS GERAIS!
Ontem estive presente em mais um pouso do 14 Bis em Salvador. Fazia tempo que a banda mineira não aterrissava em solo baiano e a nostalgia tomou conta do sempre agradável Teatro Castro Alves. Todos pareciam ansiosos por uma bela apresentação da banda que marcou época nos anos 80 e continua emocionando novas gerações. Com poucas canções novas no roteiro do espetáculo, o show iniciou com a deliciosa música de Milton Nascimento e Fernando Brant Bola de Meia, Bola de Gude e continuou apresentando grandes sucessos como: Todo Azul do Mar, Espanhola, Caçador de Mim, Natural e Canção da América. Um dos momentos mais emocionantes foi quando Cláudio Venturini lembrou o inesquecível Renato Russo, cantando Mais uma Vez e quando interpretou Planeta Sonho, levando o público ao delírio completo. No final do bis, a galera não agüentou ficar nas cadeiras e desceu para perto do palco, onde todos cantaram com a banda o clássico Linda Juventude, encerrando mais um capítulo especial do 14 Bis na Bahia.

Tenho uma identificação forte com Minas Gerais e devo confessar que a música mineira é uma das responsáveis pela formação desse elo, que não sei direito como e quando se originou. Morei 3 meses em BH, mas muito antes já sentia algo diferente pela cultura mineira. Recentemente, em uma das minhas viagens musicais, redescobri uma obra-prima da MPB, o cd CLUBE DA ESQUINA 2, digo redescobri, porque não lembrava como é simplesmente genial esse trabalho, sem dúvida, um dos maiores registros musicais de todos os tempos. Comentei com o meu grande amigo Uber, que por coincidência (ou não), justamente antes do nosso papo, andou cantarolando em casa uma das músicas dos mineirinhos. De Minas posso citar diversos talentos que admiro bastante, mas Milton Nascimento é o que podemos chamar de sublime, ESPETACULAR! Bem, fico a espera de outros grandes momentos musicais como o show do 14 Bis e termino este papo baiano/mineiro com doces palavras do poeta:

“Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou...”
Milton Nascimento

15 de set. de 2008

foto: Stella Alves

CADA OUTRO

Estou só,
Não acordei a lua de sono profundo
Não tirei estrela alguma para dançar
O que faço nessa noite de solidão,
se não despertar para mim mesmo?


Encosto a cabeça num canto qualquer,
Espero a chegada de outros,
Que há tempos não aparecem
para uma visita infinda
Cada outro que sai deste corpo agora,
já trouxe a chave que preciso
As portas , finalmente, são abertas
Deixo cair o manto num gesto delicado
Tantas possibilidades de ser,
é o que emerge dessa “desclausura”.

Ser nuvem, sol, chuva, o gosto agridoce da vida,
Ser galho, fruto, folha, clorofila
Ser a transparência do amor completo,
o retrato idolatrado pelo tempo
Enfim, transformar?
Ser ninho, ovo, asa,
ser somente PASSARINHO.


Márcio Jorge

7 de set. de 2008


MÍSTICO


Sob a noite mansa
Cansa estar sob
Palpitante preguiça de levantar o manto
Nem a cobiça
Por um ínfimo minuto
Vestiu a arrogância
Deixando assim,
Perdida a vontade
Que continua sob...

texto: Márcio Jorge
ilustração: Aldemir Martins

22 de ago. de 2008


POR UM MOMENTO

Quanto do mar já servi,
Para abrandar o que agora aparece como dor?
Mas, quanto da rosa levarei,
Para desfazer a enorme intenção de chorar?


Estar preso à vida como numa jaula
E perder o foco das reentrâncias

Faz do silêncio, uma longa trovoada...
Beira de mar, peixes de cor

Leito de rio, brilho de barbatanas
Água, água, água...

Pé de avenca na janela,
Pé de tudo no pomar
Bicho no colo, bicho no pé
Terra, terra, terra...

Quanto desse mundo ganharei,
Para desafogar quem de dentro berra?
Um pássaro sem gaiola,
Um soneto de Vinícius,
Uma espada de Ogum,
Um amor no coração.

Entre canções de ninar,
A boca amarga, CALA-SE!


texto: Márcio Jorge
ilustração: Pablo Picasso


2 de ago. de 2008

TRANSFORMAÇÃO

foto: Pierre Verger

Uma porta se fecha, enquanto uma janela se abre à sombra de um novo cometa. O sentimento que devora é o alicerce de almas. Como se não bastasse a feição súplica dos heróis, agora toda conduta se justifica perante a dissolução do imperioso planeta. Não adianta o grito mouco, a carabina apontada para os próprios miolos, o pugilato na vitrine constitui o desfecho. Quem irá nos redimir? O verme rasteja intermitente pelo deserto, a areia movediça atiça, desconstitui o verme, o vírus, a moléstia... É tempo de magos e estrelas, da vida mística, sem complemento.

Márcio Jorge


26 de jul. de 2008

Georges Rouault

ABRAÇO DE UM POEMA

Antes de tudo,
Coragem!
Para sei lá o quê
Hoje,
Só esse resto de palavras na boca
No poema que me abraça
Enquanto a noite extravasa
E alucina a rosa murcha
No frio que retalha
Em pleno fogo farto,
Açoitando a cicatriz tatuada
Na mão estendida
Frouxa e viva
Morta de cansaço.

Márcio Jorge