19 de dez. de 2023

ONDE ESTOU?

 

Olho-me

aqui dentro

como folhas

debruçadas

na pele áspera

do chão

 

Ser fervura

onde o frio congela

a mente

e o vento ameniza

o coração

 

Onde estou?

olho-me

e já não me vejo

aqui

 

15 de dez. de 2023

SENTENÇA

 

Espero-te

até quando

for possível

contar o tempo

 

Espero-te

até a saudade

virar cinzas

até a palavra

desmontar o refúgio

e o poema

não se deitar

ao meu lado

 

Espero-te

no lugar

que regressas

para matar

tua sede

e respirar

o puro ar

que te entrego

 

Espero-te

onde o amor seja

a sentença

e você, a condenada    


11 de dez. de 2023

VENTANIAS

 

Tenho seguido ventanias

na solidez do chão

deslizo sobre as próprias pegadas

 

No riso do céu

flutuo imenso

e escancaro toda manhã

que me oferta o sol

 

Para espalhar milagres

é preciso ter asas

de anjo


SACO CHEIO, MUNDO VAZIO

 

Sim

sabemos

que pesa

esse mundo

           urgente

 

De tantas

metas

planos

setas

fatos

formas

cenas

vírus

sapos

     a engolir

 

Sim

sabemos

que pesa

um saco

cheio

e um mundo

               vazio

 

A MARGEM DO SOL

 

No espelho

Destes olhos

Que se iluminam

A cada lembrança tua

Apareceste assim

Acariciando a margem do sol

Que aprisionaste

Com tuas próprias mãos


26 de nov. de 2023

CORTANTE

 

A noite observa

em meu quarto

um poema em formação

 

Juntos

eu e o poema

desenhamos um girassol

 

São flores

o que espera

o olhar sereno

da madrugada

 

São dores

o que atravessa

a lâmina afiada

do poema


A PONTE             

 

No deserto

onde não tenho voz

trago de mim

o indizível

 

No mar

onde não tenho braços

trago de mim

a correnteza

 

Na estrada

onde não tenho olhos

trago de mim

a miragem

 

No dia

onde não tenho alma

faço nascer

o fogo


EM OUTRO LUGAR

 

No corpo asilo

um ímpeto

de furar a casca

 

Como um desmaio

cai uma estrela

no rosto

 

Lentamente

cresce

em outro lugar

 

O pedaço

do rosto

a casca

desprendida

do corpo


15 de nov. de 2023

 VARANDA

 

Um sorriso de rio

desmontou em água,

uma nuvem

 

O sossego de mata

revelou o abrigo

das pedras

 

O profundo

em mim renasce

nas cores

da natureza infinita

 

Faz substância de crescer

raiz

casco

folha

asa de joaninha

 

Há luz de iluminar

colina

poça

ribanceira

passo de inseto

 

Faz nascer cheiro

de primavera

 

                 Uma rosa 

na varanda do mundo

 

SER OU NÃO SER?

 

Ser a brancura

de sal

e desvendar

a viva água do mar

 

Ser árvore

de floresta

e sustentar

os frutos do destino

inconstante

 

Ser manifesto

de motim

e consumir

as palavras ancoradas

no porto (inútil)

da poesia

 

Ser ou não ser?


19 de out. de 2023

SOTERRADO

 

Veja-me aqui

como pássaro preso

em gaiola

 

Veja-me aqui

adormecido desse mundo

sujo

 

Veja-me aqui

sem a força motriz

dos dias

sem a vontade de entender

o conflito

 

Bomba

morte

soluço

destroços

 

Veja-me aqui

soterrado pelas cinzas

que tão longe

estão


ATÉ O FIM

 

Nascer

Crescer

Sonhar

 

Seguir

Fazer

Voar

 

Plantar

Saber

Fincar

 

Morrer

Transpor

Chegar

 

Sem atalhos

no caminho