MEIO A MEIO
Aqui estou
meio sombra
meio luz
como noite
desprovida
de estrelas
No corpo
um rasgo fundo
atravessa
o peito
meio grito
meio sussurro
como filme
de um sonho
envelhecido
Preciso
escrever
um poema
meio eu
meio você
POEMA INTERMINÁVEL
Se pudéssemos
secretamente
nos beijar
sem que o tempo
cobrasse as horas
excedidas
seríamos autores
de um poema
interminável
INOCENTE
Por vezes parece distante
aquele amanhecer profundo
em dia claro de paisagem
O tempo esgota
as dores costuradas
em cada segundo de vida
O sol ainda arde
secando a enxurrada
que cai dos olhos enevoados
No ritmo do coração
voa um pássaro feliz
e o céu contempla
a liberdade de um inocente
QUANDO QUIS SER
Quando quis ser terra
só (te) interessava ser
onda de ar
Quando quis ser fogo
manto de água
Quando quis ser tempo
paraste as horas
para a solidão
inventar
TRADUÇÃO
Invento a noite
para construir as palavras
que descrevem teu corpo
Peito esse que guarda
ânsia e sossego
enganos e mistérios
Escrevo-te
e o dia chega devagar
as palavras foram poucas
traduzir-te,
como?
ÚLTIMO CAPÍTULO
Devagar
a boca
silencia
a língua
trava
a luz
do túnel
apaga
o chão
desaba
os pés
flutuam
sobre
as águas
mortas
a noite
chega
a vida
acaba
e as coisas
voltam
ao seu lugar
DOIS CORPOS
Quiseste repousar
em meu corpo
logo tratei
de acordar
antes
que sonho
virasse
nossa imagem
refletida
no espelho
da porta
FIM
A hora
passa
A tarde
A vida
segue
O relógio
um dia
para
A PEDRA QUE VIRASTE FLOR
Escrevo na terra
os passos que me levam
ao fogo
Na tua frente
talho madeira
até virar canoa
O rio é a estrada
a pedra que viraste flor
é teu coração em festa
VIAGEM
Uma palavra solta
atravessa o azul da manhã
como quem sai do sonho
para se vestir de ave
Uma palavra presa
reside num corpo sutil
disfarçado de caule
Nada tão belo
como chegar ao céu
pelo toque das gaivotas
RESPOSTA
Pássaro ou gaiola?
Silêncio ou ruído?
Medo ou fúria?
Riso ou tragédia?
Talvez água morna
e um rastro de luz
na janela.
DOMINGO
A tarde de domingo
cai perigosa
na varanda repleta
de poesia
Lá fora
uma árvore acende
seu corpo secular
como pintura marcada
no tempo
Mastigando silêncio
e virando mais um copo
o dia acaba
em versos não escritos