6 de jul. de 2023

ÚLTIMO CAPÍTULO

 

Devagar

a boca

silencia

a língua

trava

a luz

do túnel

apaga

 

Devagar

o chão

desaba

os pés

flutuam

sobre

as águas

mortas

 

Devagar

a noite

chega

a vida

acaba

e as coisas

voltam

ao seu lugar


DOIS CORPOS

 

Quiseste repousar

em meu corpo

logo tratei

de acordar

antes

que sonho

virasse

nossa imagem

refletida

no espelho

da porta


FIM

 

A hora

passa

 

A tarde

passa

 

A vida

segue


O relógio

um dia

para


8 de jun. de 2023

A PEDRA QUE VIRASTE FLOR

 

Escrevo na terra

os passos que me levam

ao fogo

 

Na tua frente

talho madeira

até virar canoa

 

O rio é a estrada

a pedra que viraste flor

é teu coração em festa

 

VIAGEM

 

Uma palavra solta

atravessa o azul da manhã

como quem sai do sonho

para se vestir de ave

 

Uma palavra presa

reside num corpo sutil

disfarçado de caule

 

Nada tão belo

como chegar ao céu

pelo toque das gaivotas


RESPOSTA

 

Pássaro ou gaiola?

Silêncio ou ruído?

Medo ou fúria?

Riso ou tragédia?

 

Talvez água morna

e um rastro de luz

na janela. 

 

1 de jun. de 2023

DOMINGO

 

A tarde de domingo

cai perigosa

na varanda repleta

de poesia

 

Lá fora

uma árvore acende

seu corpo secular

como pintura marcada

no tempo

 

Mastigando silêncio

e virando mais um copo

o dia acaba

em versos não escritos


 

27 de mai. de 2023

DIA, NOITE E DIA

 

Entre o dia e a noite

uma lágrima se esconde

na fogueira

do coração

 

Entre o dia e a noite

uma criança sorri

e desfaz o deserto

da alma

 

Entre a noite e o dia

o vermelho da alvorada

anuncia

o segredo contado

na leveza das nuvens


NA LINGUAGEM DAS ÁGUAS

 

Na linguagem das águas

encontrei um mar

de descobertas


Na linguagem das águas

traduzi o silêncio

dos peixes

renasci oceano

num extenso continente

escondido


25 de mai. de 2023

JANTAR

 

Deixo-me entrar

na morada

em que teus olhos descansam

 

Invento portas e janelas

entre paredes nuas

desejo o corpo da noite

atravessando nossa paisagem

 

Assim, entrelaçados

somos concha

em movimento

gosto agridoce na boca

jantar servido

com requinte

 

BALAIO

 

Trago

fogo

folha

e flor

 

Trago

medo

música

e mel

 

Trago

dúvida

desejo

e dor

 

Trago

casa

corpo

e céu


Trago

brisa

boca

e beijo

 

Trago

sonho

semente

e sal

 

Trago

asa

amor

e agonia

 

Trago

pedra

porto

e poesia

 

O que queres de mim?


PASSEIO

 

Caminho

em segredo

na rua

de asfalto

trepidante

buzinas

invadem

os tímpanos

nesse momento

observo

um pássaro

no galho

em profunda

meditação

o dia

precisa

de tempo

e dureza

assim como

a pedra

que se move

no chão