FIM
A hora
passa
A tarde
A vida
segue
O relógio
um dia
para
A PEDRA QUE VIRASTE FLOR
Escrevo na terra
os passos que me levam
ao fogo
Na tua frente
talho madeira
até virar canoa
O rio é a estrada
a pedra que viraste flor
é teu coração em festa
VIAGEM
Uma palavra solta
atravessa o azul da manhã
como quem sai do sonho
para se vestir de ave
Uma palavra presa
reside num corpo sutil
disfarçado de caule
Nada tão belo
como chegar ao céu
pelo toque das gaivotas
RESPOSTA
Pássaro ou gaiola?
Silêncio ou ruído?
Medo ou fúria?
Riso ou tragédia?
Talvez água morna
e um rastro de luz
na janela.
DOMINGO
A tarde de domingo
cai perigosa
na varanda repleta
de poesia
Lá fora
uma árvore acende
seu corpo secular
como pintura marcada
no tempo
Mastigando silêncio
e virando mais um copo
o dia acaba
em versos não escritos
DIA, NOITE E DIA
Entre o dia e a noite
uma lágrima se esconde
na fogueira
do coração
uma criança sorri
e desfaz o deserto
da alma
Entre a noite e o dia
o vermelho da alvorada
anuncia
o segredo contado
na leveza das nuvens
NA LINGUAGEM DAS ÁGUAS
Na linguagem das águas
encontrei um mar
de descobertas
traduzi o silêncio
dos peixes
renasci oceano
num extenso continente
escondido
JANTAR
Deixo-me entrar
na morada
em que teus olhos descansam
Invento portas e janelas
entre paredes nuas
desejo o corpo da noite
atravessando nossa paisagem
Assim, entrelaçados
somos concha
em movimento
gosto agridoce na boca
jantar servido
com requinte
BALAIO
Trago
fogo
folha
e flor
medo
música
e mel
dúvida
desejo
e dor
casa
corpo
e céu
brisa
boca
e beijo
sonho
semente
e sal
asa
amor
e agonia
pedra
porto
e poesia
O que queres de mim?
PASSEIO
Caminho
em segredo
na rua
de asfalto
trepidante
buzinas
invadem
os tímpanos
nesse momento
observo
um pássaro
no galho
em profunda
meditação
o dia
precisa
de tempo
e dureza
assim como
a pedra
que se move
no chão
SONHO
Rasga
no céu
o canto
livre
de pássaro
meu peito
abre fenda
e deixa
existir
um coração
fora
do ninho
Sustentável
escorre
pelo dia
vontade
fixa
de ser
vento
no silêncio
das folhas
e do poente
ALPINISTA
Ao fim da noite
o corpo segue como um alpinista
das grandes alturas
a carne gelada sangra no cume
o gelo ainda não derreteu
subir embriagado de luz
pareceu uma suave aventura
se ver lá embaixo novamente
um ríspido equívoco.