13 de mai. de 2023

ALPINISTA

 

Ao fim da noite

o corpo segue como um alpinista

das grandes alturas

a carne gelada sangra no cume

o gelo ainda não derreteu

subir embriagado de luz

pareceu uma suave aventura

se ver lá embaixo novamente

um ríspido equívoco.


SER POEMA

 

Quem me dera saber do poema

o que ele já sabe de mim

 

Quem me dera fazer do poema

eternidades  



IMPROVISO

 

Há sempre o momento certo de saltar.

 

Como saber se o certo momento chegou

quando não se tem a certeza

do tempo claro

nem a promessa

de abrir o paraquedas? 

 

É só mirar na empáfia

daquele que escreve o roteiro

mas prefere o improviso.


12 de mai. de 2023

ALTITUDE

 

Deita-me assim

como quem flutua em ondas de mar

 

Ama-me então

no trânsito inconstante das estrelas

 

Acredito ser montanha

agora descobre tuas asas



11 de mai. de 2023

PARA FORA

 

O impulso arremessa o medo

de ser impuro

para os puros de conduta

 

Fora da destreza,

do pulso cambaleante e

do olhar leviano

 

Um coração bate soberbo,

límpido

 e vermelho


26 de fev. de 2023

QUESTIONÁRIO

 

O que faz o amor

percorrer léguas

sem cansar?

 

O que faz o amor

nadar em zonas

de arrebentação?

 

O que faz o amor

de pé na ladeira?

 

O que faz?


SINTONIA

 

Aproveitei sua música

Para entender meu poema

A música, entendi

O poema, ainda não

 

                     Que sorte!


24 de fev. de 2023

AFOGADO

 

tempo

hora

desperta

 

fio

desenrola

o movimento

 

sílaba

sai

da boca

lasciva

 

corpo

afogado

de poesia

cai

no azul

do sonho

 

será

de nós

a música

alta

no peito?


23 de fev. de 2023

NOITE

 

Atrevo-me a descobrir

o espaço que comporta

a imensidão da noite

 

Aqui, um céu escuro

um coração escuro

e uma fome insaciável


13 de fev. de 2023

FOGUEIRA

 

Nesta hora

Quando trouxe

Um rio inteiro

Para nossa margem

Agarrei toda água  

Com mãos de concha

Entre os dedos

Foi-se a correnteza

Nesta hora

Quando desejou

Fazer o sol de abrigo

Percebi

Que fogueira

Já éramos ali.


DESMONTE

 

Pouca água

     Para encher a fonte

Pouco sonho

     Para encher a vida

 

Pouca água

      Pouca fonte

Pouca vida

 

E o sonho

      Quiçá um (dia)

Ainda

      Sobreviva



25 de dez. de 2022

PEREGRINO        

 

Escrevo-me

entre mundos

que há tempos

procuro desvendar

 

Leio-me

nos passos que deixei

marcados

em cada degrau

que construí (já foram 50)

 

Procuro-me

na linha do tempo

assim

como um felino

em novelo de lã


Encontro-me

mais antigo

com mãos de colher vento

e pés de subir colina

 

Aprendo-me

ansiosamente

até o poema

chegar