FOGUEIRA
Nesta hora
Quando trouxe
Um rio inteiro
Para nossa margem
Agarrei toda água
Com mãos de concha
Entre os dedos
Foi-se a correnteza
Nesta hora
Quando desejou
Fazer o sol de abrigo
Percebi
Que fogueira
Já éramos ali.
PEREGRINO
Escrevo-me
entre mundos
que há tempos
procuro desvendar
Leio-me
nos passos que deixei
marcados
em cada degrau
que construí (já foram 50)
Procuro-me
na linha do tempo
assim
como um felino
em novelo de lã
Encontro-me
mais antigo
com mãos de colher vento
e pés de subir colina
Aprendo-me
ansiosamente
até o poema
chegar
TERAPIA
É difícil refazer
as arestas deste mundo
imperfeito
Movo-me parado
na cela dos dias
Torço pela luz
que vem do sol
do poste
ou dos vagalumes
Há um erro
para cada acerto
encontrado
Há um divã
para cada angustia
que tece a mente
Há de existir também
um veleiro
que transporte para longe
a solidão
de um náufrago
RELÓGIO
Na urgência do tempo
descobri nas pedras
o mistério da pureza
cometi os erros do futuro
atravessei a fronteira
do mapa invertido
Na urgência do tempo
mergulhei na onda de sal
colhi as pétalas
que pularam do caos
enterrei o último espinho
da rosa
Na urgência do tempo
não percebi quem olhava comigo
mais um pôr do sol