OLHOS FECHADOS
Doem-me os olhos
não foi cisco
que entrou
nem a secura habitual
da síndrome
Hoje o colírio
não bastará
só o apagar
do dia
RELÓGIO
Na urgência do tempo
descobri nas pedras
o mistério da pureza
cometi os erros do futuro
atravessei a fronteira
do mapa invertido
Na urgência do tempo
mergulhei na onda de sal
colhi as pétalas
que pularam do caos
enterrei o último espinho
da rosa
Na urgência do tempo
não percebi quem olhava comigo
mais um pôr do sol
POEMA PARA
UMA NOITE DE INVERNO
I
Era uma noite de inverno
rua de mão única
e o pensamento também era único:
procurar a pista certa
para o desfecho final!
II
Na verdade
queria encontrá-la de novo
saber como apareceu e fugiu
em meio aos destroços que havia lhe deixado
nada tinha nas mãos
nem sabia o que iria dizer
caso a encontrasse naquela rua novamente.
III
Já era tarde para manter a esperança
mas o tempo pouco importava
na história que se construía
então, apurou a mirada
e finalmente sentiu um vulto
que passava por ali.
IV
O que iria fazer afinal
se não tinha sequer palavras para explicar
o quanto desejava aquele reencontro?
V
Foi se aproximando devagar
Assustou com os ratos fuçando sacos de lixo
suou frio, as pernas tremeram
mas na hora derradeira
lembrou que sabia de cor
todos os versos de um poema de Leminski.
REVELAÇÃO
Ainda sim
vencemos o soluço do dia
as sirenes estridentes
os carros estremecendo o asfalto
Ainda sim
vencemos a falta de tempo
de espaço
de convencimento
Ainda sim
vencemos o murmúrio da noite
a bomba de hidrogênio
os homens construindo o medo
Ainda sim
vencemos a falta de saída
de pegadas
de estradas
Ainda sim
vencemos