7 de ago. de 2022

FUTEBOL

 

Você deixou a bola

na marca do pênalti

assim como um craque

mandei para as redes

percebi o teu rosto em assombro

e a decepção inexplicável

por causa do gol

não esperamos o apito final

e o jogo acabou

sem vencedor  


FOTOGRAFIA

 

Nuvens atravessam o céu

um tanto pintado de noite

abre-se para fotografia.

 

Fim de tarde

prepara o caminho

para quem se põe...

 

O sol agradece

o tom laranja da estrada

e como cortejo

promete voltar.


18 de jul. de 2022

POEMA PARA UMA NOITE DE INVERNO

 

I

 

Era uma noite de inverno

rua de mão única

e o pensamento também era único:

procurar a pista certa

para o desfecho final!

 

II

 

Na verdade

queria encontrá-la de novo

saber como apareceu e fugiu

em meio aos destroços que havia lhe deixado

nada tinha nas mãos

nem sabia o que iria dizer

caso a encontrasse naquela rua novamente.

 

III

 

Já era tarde para manter a esperança

mas o tempo pouco importava

na história que se construía

então, apurou a mirada

e finalmente sentiu um vulto

que passava por ali.

 

IV

 

O que iria fazer afinal

se não tinha sequer palavras para explicar

o quanto desejava aquele reencontro?

 

V

 

Foi se aproximando devagar

Assustou com os ratos fuçando sacos de lixo

suou frio, as pernas tremeram

mas na hora derradeira

lembrou que sabia de cor

todos os versos de um poema de Leminski.  



PASSANDO O TEMPO

 

Essa ideia de escrever poemas

me faz perder (ou ganhar)

todas as horas do dia

todos os dias da semana

quiçá todas as semanas do mês

 

               mas, em que ano estamos?  


16 de jul. de 2022

 HOMOTIPIA

 

Despois de me esquivar

das armadilhas dos dias turbulentos

vi a ventania que trago nas mãos

ocultar-se no bolso da frente como brisa

mesmo com ameaça de temporais

criei a soberba do disfarce

e como bicho-pau

viro graveto também.


REVELAÇÃO

 

Ainda sim

vencemos o soluço do dia

as sirenes estridentes

os carros estremecendo o asfalto

 

Ainda sim

vencemos a falta de tempo

de espaço

de convencimento

 

Ainda sim

vencemos o murmúrio da noite

a bomba de hidrogênio

os homens construindo o medo

 

Ainda sim

vencemos a falta de saída

de pegadas

de estradas

 

Ainda sim

        vencemos


PROCURA

 

Em ti,

vi você e eu

 

Em mim,

vi você e eu

 

Em nós,

onde

te vi?



22 de mai. de 2022

TERREMOTO

 

De dentro pra fora

leveza de pássaro

 

De fora pra dentro

sinal de terremoto

 

Assim

sangrou meu silêncio 


25 de abr. de 2022

POEMA CONCEBIDO EM RETRATO DE RIO

                                         para Manoel de Barros (mais uma vez)

 

Manoel se deitava

na beira do rio

e se fazia de peixe também.

Pouco a pouco

curiosas formigas

chegavam para vê-lo

com escamas e nadadeiras

na generosa linha d’água

que se movia pelo leito afora.

Passarinhos afinavam seus cantos

e traziam para o encontro

um repertório de melodias sagradas

besouros e joaninhas

já esperavam pela liturgia.

Debaixo da turva onda do rio

a poesia continuava entrelaçando sonhos

e Manoel nadava tranquilo.

 

ESCALADA

 

Em lugar

de lua alta

cantos noturnos

celebram

a escalada.

 

Eu

do topo

da montanha

imaginada

ao sublime

abraço

de uma estrela.


21 de abr. de 2022

FLAGRA

 

Na branca manhã

da paisagem

 

Não pesa a vida

como tanto antes

 

Sigo-me

como folha

lançada ao rio

 

Deslizo-me

em águas doces

 

       num belo dia para existir.      

 

20 de abr. de 2022

IMPULSO

 

Não faltou atear fogo

perder a cabeça

perder os sapatos

perder o tempo

perder as canções

de relaxamento

perder, perder, perder...

 

Abdicou da palavra

que nem sequer chegou

a riscar o horizonte

da ilusão.

 

Há dias

que de repente sabemos

que o cedo

já é tarde demais.