FUTEBOL
Você deixou a bola
na marca do pênalti
assim como um craque
mandei para as redes
percebi o teu rosto em assombro
e a decepção inexplicável
por causa do gol
não esperamos o apito final
e o jogo acabou
sem vencedor
POEMA PARA
UMA NOITE DE INVERNO
I
Era uma noite de inverno
rua de mão única
e o pensamento também era único:
procurar a pista certa
para o desfecho final!
II
Na verdade
queria encontrá-la de novo
saber como apareceu e fugiu
em meio aos destroços que havia lhe deixado
nada tinha nas mãos
nem sabia o que iria dizer
caso a encontrasse naquela rua novamente.
III
Já era tarde para manter a esperança
mas o tempo pouco importava
na história que se construía
então, apurou a mirada
e finalmente sentiu um vulto
que passava por ali.
IV
O que iria fazer afinal
se não tinha sequer palavras para explicar
o quanto desejava aquele reencontro?
V
Foi se aproximando devagar
Assustou com os ratos fuçando sacos de lixo
suou frio, as pernas tremeram
mas na hora derradeira
lembrou que sabia de cor
todos os versos de um poema de Leminski.
REVELAÇÃO
Ainda sim
vencemos o soluço do dia
as sirenes estridentes
os carros estremecendo o asfalto
Ainda sim
vencemos a falta de tempo
de espaço
de convencimento
Ainda sim
vencemos o murmúrio da noite
a bomba de hidrogênio
os homens construindo o medo
Ainda sim
vencemos a falta de saída
de pegadas
de estradas
Ainda sim
vencemos
POEMA CONCEBIDO EM RETRATO DE RIO
para Manoel de Barros (mais uma vez)
Manoel se deitava
na beira do rio
e se fazia de peixe também.
Pouco a pouco
curiosas formigas
chegavam para vê-lo
com escamas e nadadeiras
na generosa linha d’água
que se movia pelo leito afora.
Passarinhos afinavam seus cantos
e traziam para o encontro
um repertório de melodias sagradas
besouros e joaninhas
já esperavam pela liturgia.
Debaixo da turva onda do rio
a poesia continuava entrelaçando sonhos
e Manoel nadava tranquilo.