HOMOTIPIA
Despois de me esquivar
das armadilhas dos dias turbulentos
vi a ventania que trago nas mãos
ocultar-se no bolso da frente como brisa
mesmo com ameaça de temporais
criei a soberba do disfarce
e como bicho-pau
viro graveto também.
REVELAÇÃO
Ainda sim
vencemos o soluço do dia
as sirenes estridentes
os carros estremecendo o asfalto
Ainda sim
vencemos a falta de tempo
de espaço
de convencimento
Ainda sim
vencemos o murmúrio da noite
a bomba de hidrogênio
os homens construindo o medo
Ainda sim
vencemos a falta de saída
de pegadas
de estradas
Ainda sim
vencemos
POEMA CONCEBIDO EM RETRATO DE RIO
para Manoel de Barros (mais uma vez)
Manoel se deitava
na beira do rio
e se fazia de peixe também.
Pouco a pouco
curiosas formigas
chegavam para vê-lo
com escamas e nadadeiras
na generosa linha d’água
que se movia pelo leito afora.
Passarinhos afinavam seus cantos
e traziam para o encontro
um repertório de melodias sagradas
besouros e joaninhas
já esperavam pela liturgia.
Debaixo da turva onda do rio
a poesia continuava entrelaçando sonhos
e Manoel nadava tranquilo.