MIRAGEM
Na janela entreaberta
desenha-se
a noite clareada
de lua.
Por sua pele
rosas tatuam pétalas
recolhem espinhos
em silêncio
e deixam sua nudez
parecer
uma miragem.
UMA MANHÃ
Acordou cedo
Mas ainda tinha sinais de ontem
O hoje já havia chegado
e os
pensamentos eram antigos
Perguntou-se com aflição:
- Para
que calendário separando os dias?
Tudo parece um dia só,
um tempo só,
uma
vida só!
Percebeu que não adiantava
mudar o dia
Sua história não existia sem passado
E tampouco continuaria existindo
Sem escrever as páginas do presente
(e o futuro, pra que serve mesmo?)
Então, resolveu levantar
de
bate-pronto
Como quem leva um susto
em plena segunda-feira
Escovou os dentes,
tomou um banho frio,
leu cinco
poemas da Ana Martins Marques
e saiu sem tomar café
A rua era a mesma
o sol
era o mesmo
as contas para pagar também
Só o que parecia diferente
Era sua consciência
de que nada havia mudado.
MATÉRIA-PRIMA
Da palavra
retiro o pó
para compor a pedra
a sílaba forte
a matéria de fazer
pensamento.
Da palavra
extraio a flor
para forjar o delírio
a súplica das horas
o amor bordado
em pele de pétala.
Da palavra
refaço o plano
para me perder do tempo
da ponte previsível
das velhas formas
do caminho.
Da palavra
construo o silêncio
me calo
em poema!
...
Ilustração: Domingo Enriques Ramos
OBRA DE ARTE
De olhos baixos
e penumbra no peito
nem percebeu a chegada do sol
As janelas fechadas
fizeram do seu reduto
uma fortaleza medieval
o muro do desalento
foi erguido com sucesso
Em apenas um dia solitário
escreveu o roteiro completo
de uma película de terror
No outro amanhecer,
preferiu contemplar os jardins,
o amor
e as borboletas...
Não tinha pressa
nem vontade de sair
uma obra de arte, assim, nasceu.
...
Ilustração: Claude Monet
PARA DESAGUAR
A lágrima que não cai
Esconde lá dentro
Um rio que não desagua
Barco carregado de descontento
Navega neste rio de dentro
A procura incansável de um cais
Foi-se longe então
Com vendaval no caminho
E uma vida inteira para chegar
A lágrima que não cai
Esconde lá dentro
Um poema adormecido
Sedento de desaguar
Era só um poema de amor
Que, em mim, demora.
...
Ilustração: Theo Van Ryssel