4 de abr. de 2016

TEMPO PRESENTE

Carlos Páez Vilaró















Nada como antes
Quando hoje não me vejo
Tudo pra amanhã
Quando hoje não me vejo.

Assim será o tempo:
Se me vejo hoje
Sou presente
Amanhã será acaso
Ontem,
Nem me lembro!

6 de mar. de 2016

VAZIO


foto arte: Márcio Jorge


















Sol

itário


Es

correr

O

Mun

dó.



28 de fev. de 2016

ATO

Rufino Tamayo








  




Ato
Que desata
O nó
Capa
Que esconde
O furo
Lata
Que contém
A capa
Em cima
Do muro
Ato
Que desata
O nó
Olho
Que enxerga
O vulto
Barco
Que navega só
Corpo
Que cai
De maduro
Ato
Que desata
O nó
Vela
Que apaga
O escuro
Mão
Que carrega
O sol
Desbrava
A ânsia
Do ato
Futuro.


21 de fev. de 2016

EM LUGAR ALGUM

foto arte: Márcio Jorge












 
Lá que me encontro
Entre águas e pedras de limo
Na linha estreita das formigas
A ouvir o recital de bem-te-vis
 
Lá que me encontro
Na selva da cidade de concreto
Entre carros e horizontes de fumaça
A contornar as folhas dos galhos
 
Em que lugar me encontro,
No exílio do quintal secreto,
Fora da galáxia,
Longe ou perto? 



5 de fev. de 2016

POR ACASO

Alberto Lestrad

Anunciei o dia
Quando o acaso ordenou
Que o bocejo
Virasse canto
Que o altar
Perdesse o santo
E a boca
Tocasse o fagote.

Anunciei o dia
Quando o acaso ordenou
Que a vida
Fosse urgente
Que a festa
Começasse de repente 
E o fim
Chegasse amanhã,
Sem alarde
 

21 de jan. de 2016

MANTRA


Claude Monet














Na ponte precisa da miragem
No leito do rio largo
Na sombra da vistosa amendoeira
Em que dialeto cantar
O mantra que tece o sentimento,
Que se expande repleto em nebulosa?
Da luz renascerá o amor,
Em que cidade de assombros e desejos,
Em que mensagem lançada ao mar?
No murmúrio do discreto dizer
Ou no redemoinho de palavras soltas
Que segredo confessar, 
Em que terra escondida?



15 de jan. de 2016

SOPRO DO TRANSE

Oswaldo Guayasamín











No transe do não ser
A semente do oculto germina
E do mergulho único
Sem contornos nem limites
Surge o mel da manhã
Com cheiro de girassol
E aves decorando arbustos
A entrega é sempre inexplicável
Não possui medo
Nem sequer o tangível
Move curvas repetidas
Desce em rampas retilíneas
Vai roçando na pele de pêssego
No transe do não ser
A semente do oculto germina
Cai na prata dos perdidos,
Sede de estar livre
Na lonjura de si.  

..........

para Clarice Lispector


14 de jan. de 2016

ESTRADA

foto arte: Márcio Jorge 









Na estrada em que se segue
Segue o sangue da noite escura
Sem a chama capital
E sob a sombra secreta da loucura.

Na estrada em que se segue
Segue o homem e o seu destino
Caminhos de mitos,
Terras e ventos...

Na estrada em que se segue
Ninguém mais caminha
Só a pedra solitária
Na poeira do chão que vivia.

Mas a aurora insistente
Ainda espera
O fim da noite escura
Na estrada em que se segue...



8 de jan. de 2016

PODE SER

Maurice de Vlaminck














Sim, pode ser da vida esta manhã
Pode ser que encontre o seu passo
Firme desfazendo na areia
Até que a espuma desmonte
As finas sobras do seu universo.

Sim, pode ser da vida transformar
Pode ser você afinal!


7 de jan. de 2016

O PRIMEIRO DIA

foto: Márcio Jorge
















O tempo a caminhar sem demora
Nascer em cada dia pulsante
Onde a sede da existência devora
verdades e névoas. 

Hoje, exaspera a corrente de mar,
O vasto baú de quimeras
Entre palmeiras que enfeitam
as horas mórbidas.

E no tempo de passos lentos
Brota o que se quer guardar nas mãos:
Versos, rimas, notas de canção,     
Luz de lua, sorrisos de labareda 
e regalos de amor.