28 de mai. de 2015


DISSONANTE
foto: Márcio Jorge
 
   Quem disse que a vida é desse jeito,
Sem diversão ou quimera
Sem pipa rasgando nuvens
Ou papo de vizinho na janela?

   Quem disse que a vida é desse jeito,
Sem rapadura no tacho
Sem peixe no riacho
Ou barco de papel e vela?

   Quem disse que a vida é desse jeito,
Sem encontros e sabores
Sem a luminescência dos amores
Ou prata de lua e mar?

Quem disse que a vida é desse jeito,
Sem bola nem tatu
Sem mato nem teiú
Ou ramo de flor amarela?

   Quem disse que a vida é desse jeito,
Sem cheiro de alecrim
Sem rosas no jardim
Ou pedra de musgo na terra?

   Quem disse que a vida é desse jeito,
Nunca brincou de voar
Nem sequer caiu do galho
Pra depois se levantar!


19 de mai. de 2015

DESAFIO

foto arte: Márcio Jorge

Vãs 
São as palavras
Que hoje me desafiam
Não vou
Já disse que não quero
Não permito
Pois será lamento
Escondo a caneta 
E elas esquecem o desafio.


9 de mai. de 2015

MOVIMENTO

foto: Márcio Jorge
















Aconteceu quando ninguém mais esperava,
A cantiga de roda soou macia
Rodou até a melodia
Do canto de pintassilgos.

Vai sim,
Veste a pantalona de cores
Sobe no palco sem medo
Que hoje tem espetáculo
Com furdunço na varanda 
E criança subindo aos montes.

Aconteceu quando ninguém mais esperava,
O som de violino aluviou os ouvidos
Sem ensaio de concerto
Fez bailar os flamingos

E o beijo na face virou um belo sorriso.


2 de mai. de 2015

FRAGMENTOS DE UMA NOITE CLARA

foto arte: Márcio Jorge
















O que nunca chegou assim
Na enxurrada de uma noite clara?
Talvez a lacuna forjada pela pedra de sal
Brevemente desmontada
Pelo pingo da saliva.

Do voo noturno,
Sem escala para suprir
Cacos de toda parte
E só as estrelas varrendo
O pó da noite clara.


24 de abr. de 2015

FOLHAS DE ABRIL

foto arte: Márcio Jorge















Pode ser que tenha medo, coragem, vontade
Ou tudo isso disfarçado de calma
Mesmo que falte um segundo
E o fiapo de sol queime o graveto
A linha do trilho perpassa o espaço nulo
Antes deixado pelas fartas folhas de abril
Que espalham enfim seus corpos
Entre tantas direções...

30 de dez. de 2014

DEZEMBRO

Paul Klee















Foi só pensar no caminho
Na correnteza que me traz de volta
Fez-se o silêncio solitário
Em cada sopro que abre as rosas.

Um corpo em desalinho
Sobre as águas que dobram as esquinas
Em ondas de íntimo temor
No conto final de dezembro.

Entre rochas e labaredas
Uma fronteira então aparece
E a ponta de estrela invisível perfura o peito
Ou quem sabe apenas uma palavra perdida,

Medo ou acalanto?


27 de fev. de 2014

PARA FALAR DO TEMPO
 
foto: Márcio Jorge









Versejo sobre o tempo
Toda angustia de não o ter em domínio completo 
Serão teus os meus passos?

Lembro de repente,
Do segundo que falta
Para beber a última gota de vinho
É agora!
É pra já!

Sem pausa, rumo para a última página
Mesmo que o pretérito seja imperfeito!

Versejo sobre o gesto de versejar
Sobre o tempo...

Aquele que se vê passar pela janela
É também o que compõe a canção
No conta-gotas dos dias,
Na espera da estação,
No lado de lá da fronteira,
Na morte e apogeu da paixão

Tempo, tempo, tempo!
Esparramado, perdido, achado, espremido,
mal cuidado, intrometido, pouco, inventado, dividido,
transformado, muito, interativo!

É possível que me leves assim?
Sem ao menos o teu plano de fuga conhecer?
Mas como diz um velho amigo irmão:
“Temos todo tempo do mundo” 
Será cara?
Acho que não!

                                                                                    poema dedicado a Uber Alves
                                                              (depois de um papo filosófico sobre o tempo)


26 de jun. de 2013

POR ONDE CAI A CHUVA?

Luísa Dalartesa
       












Hoje,
Já não bato mais
Em mim.

Vejo a chuva cair
Tranquila bate
Na vidraça
No rosto
No carro que passa.

Águas de céu
Que molham os versos
Encharcando a poesia de pirraça
Como se nada ali estivesse
Continua então a cair
Lavando o lodo
A crosta da esfera
E como lágrima de dor
Escorrega...

Por onde cai a chuva?
Hoje,
Já não bato mais
Em quase nada.