4 de jul. de 2011

O INFINITO PEDAÇO DE TODAS AS COISAS

Joan Miró
















De tanto
Formou-se tudo em tão pouco
Pouco que era tudo
Coube na palma da mão
Então,

Para que o tanto absurdo,
Se o que constrói é apenas um grão?

                                     

30 de mai. de 2011

    PAPO DE CINEMA                       

Já faz algum tempo que o cinema argentino me conquistou de um jeito especial, principalmente por causa da delicadeza de suas películas e das interpretações fascinantes de seus atores. Através do drama “Lluvia”, da diretora Paula Hernandéz, pude novamente comprovar a competência dos nossos hermanos no disputado universo da sétima arte.

O filme conta a história de duas pessoas perdidas em seus problemas familiares e que se encontram casualmente em meio a um grande temporal numa avenida movimentada de Buenos Aires. Esse encontro será uma verdadeira descoberta para Alma, personagem vivida pela atriz Valeria Bertuccelli e para Roberto, interpretado pelo ator Ernesto Alterio. Parece uma história banal do cotidiano, mas realmente é, porém transformada pela suavidade de olhares, gestos e palavras cheias de forte emoção. A identificação com as angustias apresentadas pelos protagonistas ocorrerá de forma natural por quem assiste, pois provavelmente já deixamos ou já pensamos em deixar alguma coisa para trás em algum momento da nossa existência.

A trilha sonora também é interessante e a fotografia é sublime, encantando sobretudo pela sutileza e harmonia estética das imagens. Ao ver o trabalho da Hernandéz, devo confessar que senti saudade da capital argentina e dos bons momentos que passei por lá, embora o meu sentimento maior fosse de contentamento por mais uma vez encontrar uma produção de alta qualidade no cinema sul-americano. Sei que a sensação provocada por um filme é relativa, pois irá depender sempre do momento e da sensibilidade de cada pessoa, no entanto, assistir o longa “Lluvia” foi uma surpresa tão cativante, que não saberia descrever a imensa alegria que me acompanhou ao sair do cinema e permaneceu no meu encalço até altas horas da noite.

Ficha Técnica

Título: Lluvia

Ano: 2008
País: Argentina
Gênero: Drama
Direção e Roteiro: Paula Hernández
Elenco: Ernesto Alterio, Valeria Bertuccelli
Duração: 110 min.

22 de abr. de 2011

ENCONTRO

para Hilda Hist
 

Aqui, teus olhos enxergam
O caminho que sopro de dentro
Para chegar em tuas veias
Na profusão do encontro,
Início de passagens tantas
Ancoradouros então
Formaram-se
E o extenso tempo foi o que restou
Assim como quem observa o corpo-mar
Olho o teu lastro de palavras em júbilo
Da angústia ao contento
Do ocre ao escarlate
De tão poucas horas
Fez-se poesia!
Sem qualquer estranhamento
Teu amor sangra a pele viva
Copiosamente
Transforma vales e montes
Não deixa secar a fonte
Em teu espaço-tempo
Dar-te-ei reverência.

7 de fev. de 2011

 
  ALGUMAS PALAVRAS DE AMOR

tela de Kees Van  Dongen


Elegi amores
Que não cabem em palavras poucas
Muito se despeja
Quando a medida do amor
É um espaço sem contorno,
Um esconderijo sem teto,
Sem chão,
Sem o primeiro
Muito menos o último degrau.


Elegi amores
Que não cabem no quarto escuro da razão
Apenas transbordam,
Como água de enxurrada,
Como lava de vulcão,
Como neve de avalanche,
Soterrando um coração em brasa!

26 de out. de 2010



 Já começou o 3º Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia (FIAC - BA), que este ano apresenta mais de vinte espetáculos, vindos de cinco países,  distribuídos em diversos teatros da capital baiana e também em espaços públicos e alternativos. Entre os dias 23 e 30 de outubro de 2010, além de assistir às montagens de variados gêneros, o público de Salvador poderá participar também de palestras, bate-papos, oficinas e encontros com profissionais das artes cênicas do cenário nacional e internacional. Entre no site oficial http://www.fiacbahia.com.br/ e confira a programação completa do festival.

15 de ago. de 2010

PAPO DE CINEMA

Era década de 60 e o povo brasileiro vivia o clima hostil da ditadura militar, que em muitas vezes, limitou com truculência as produções culturais no Brasil. Foi nesse instante de luta ideológica e efervescência política que o país conheceu o auge da era dos festivais de música e apresentou alguns dos artistas considerados de fundamental importância para a formação da Música Popular Brasileira.

O documentário "Uma Noite em 67", dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, mostra uma disputa empolgante entre novos compositores e intérpretes da MPB que provocou emoções fortes numa platéia eufórica, preparada para vaiar ou aplaudir os artistas com a mesma intensidade. O festival de 1967 revelou canções que se tornaram históricas na galeria dos festivais organizados pela TV Record em São Paulo. O vencedor daquela tão esperada final foi Edu Lobo com "Ponteio". Em segundo lugar ficou a canção "Domingo no Parque", interpretada por Gilberto Gil e com a participação especialíssima do grupo Os Mutantes. Chico Buarque de Hollanda foi acompanhado pelos músicos do MPB 4 na interpretação da música "Roda Viva", que conquistou o terceiro lugar. Caetano Veloso cantando "Alegria, Alegria" provocou vaias do público, mas antes do final de sua apresentação, o baiano reverteu a situação desfavorável, conseguindo a quarta colocação da noite e o reconhecimento efusivo da platéia. Roberto Carlos também participou da festa e chegou ao quinto lugar com o samba "Maria, Carnaval e Cinzas". Naquele ambiente de muita competição, o drama maior foi vivido pelo cantor Sérgio Ricardo que marcou o seu destino no festival ao destruir o violão e atirá-lo ao público depois de ser insistentemente vaiado pela canção "Beto Bom de Bola".

O filme alterna imagens da época, inclusive mostrando as apresentações principais na íntegra, com depoimentos inéditos dos intérpretes e de algumas testemunhas importantes como o jornalista Sérgio Cabral (um dos jurados) e os produtores culturais Solano Ribeiro, Zuza Homem de Melo e Nélson Mota. Aquele momento inesquecível para o cenário musical brasileiro proporcionou uma verdadeira revolução cultural no final dos anos 60, que se propagou com o fortalecimento da MPB, o surgimento da Tropicália, as inclusões da música pop internacional e a explosão das diversas manifestações artísticas regionais. Assistir "Uma Noite em 67" é uma bela recordação para quem viveu aqueles momentos inestimáveis e um aprendizado valioso para as novas gerações, pois mais do que um registro musical, trata-se de uma viagem histórica, ideológica, social e política de uma época de grande relevância para o nosso país.
texto: Márcio Jorge.
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Ficha Técnica
Título: Uma Noite em 67
Ano: 2009
País: Brasil
Língua: Português
Gênero: Documentário
Direção e Roteiro: Renato Terra e Ricardo Calil
Elenco: Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo, Gilberto Gil, Roberto Carlos e Sérgio Ricardo
Duração: 105 min.
Censura: Livre


13 de jul. de 2010

Paul Klee


AFINIDADES

Dentro de cada louco humano tolo
Habita não somente um âmago
Transparecido pela retina ofuscante
De um olhar
Há no disparar de cada coração
Um céu nublado,
Uma ponte entre a luz do querer
E o desbotar do adormecido sonho.

Dentro de cada louco humano tolo
Lembraças de ontem
Em caminhos percorridos com ternura,
Laçados pela neblina que envolve
Afinidades tantas!
Entre loucos transeuntes
Na solidão de mais um dia
Entre cegos humanos
(não reconhecem o espelho partido)
E entre tolos inocentes
que de perto vivem.

29 de mai. de 2010

Camille Pissaro

PAISAGEM INVENTADA

Luz de candeia acendeu
No mato arrepio de vento
E a voz do sossego sussurrou no ouvido-martelo
O rouxinol nem sequer apareceu
Voou sorrateiro,
Apaziguando quase tudo
Que pudesse estar em pranto
Leve, muito leve
Foi-se o pensamento
Numa folha amarelada
Em contraste com o solo enegrecido
No cume de um outeiro
Comovo-me com a água
Que escorre no leito da paisagem inventada
Quem dera ser o pó do caminho
Figura cravada no barro
De manhãzinha
Entre raios de sol
E passos de formiguinhas
Não sei o que penso
Deito na relva
E viro pedra novamente.

3 de mai. de 2010

foto: Márcio Jorge


COMPOSIÇÃO

Quero estar
No imaginável limite
Entre o céu e o mar,
Tragando o mistério
E o costume de segui-lo.

Quero sentir
De cada verso escrito
Um devasso mundo contido,
Atravessando o avesso do verso
Em rimas sólidas, sem disfarce!

Enquanto confesso,
Viajo calmamente em cidades caóticas
De fendas profundas e deuses eternos.

Quero querer
De vez em quando o acaso
Abusar do gozo insano
Em plena tarde de outono
Ou em plena tarde qualquer.

É preciso reinventar o sorriso
E comemorar a madrugada vazia
Como são aqueles
Que fazem do seu dia
A promessa de ontem.

Quero colher
Os pedaços que me faltam
Absorvendo o puro reflexo
Mesmo que pareça complexo
Tragar o próprio mistério.

É preciso continuar querendo
Flores de todos os jardins
Espatifando os imundos espinhos
Esses daninhos,
Fel do clã
que se compôs.

29 de mar. de 2010

Maurice de Vlaminck



PASSOS NA CONTRAMÃO

... E de leve perdi o riso
Beijei a flor
Ao sentir a brisa
Afinal,
De quem será a brisa?
Tal como a nascente
Parte a sombra de quem não mais existe.

O tempo e o homem
Comovem,
Suas queixas desvalidas
São tão novas quanto à bruta pedra polida.

Dentro da gruta infinita
Escondo esta alma de bardo
Ou apenas um semblante estarrecido,
Ingênuo
E por que não alegre dizer?
Sério brinquedo
Acima de um abismo.

9 de mar. de 2010

André Derain






















VÍCIO DI VERSOS

Vento sopra
Pedra rola
Ferro feri
Aqui
E ali.

Chuva cai
Traz o cheiro
Cheiro de pólvora
Cheiro de terra molhada,
Um cheiro outro qualquer.

Pena voa,
Que pena!
Bate no muro
Vira amargura
Aqui
E ali.

O lírio canta
A lira toca
Trova bonita
"Vício di versos"
delírio, delírio...

Vida passa
Cheia
Ou vazia
Prato raso
Raso dia
Luz apaga
Vive o breu
E sobre a mesa escura
Um papel rabiscado
Com palavras vadias:

Sonho,

Luta,

Amor,

Armadilha,

Tesouro,

Jardim,

Semente,

Soneto,

Promessa,

Corrente,

Beco,

Berro,

Alma,

Tudo.

Assim,
Ainda escreve
O poeta.

25 de jan. de 2010

Piet Mondrian
















NOSTALGIA VERDE

Bela como era
Não mais transita
Onde habita
Asas abertas,
Coloridas,
Expostas
E tantas vezes despidas
Fechadas na liberdade roubada
Pelo rústico instinto
Que penetra,
Tritura,
Afoga...

Lágrimas escorridas
Sangue na seiva
Nos velhos troncos
Velhas testemunhas...

Das queimadas,
Só se for a folha seca
Esturricada,
Atirada ao solo ardente
Seca,
Pelo sol seco.

Das caçadas,
Só se for a natural seleção
Naturalmente pura,
Discreta parte do reino ferido
Mendigando socorro,
Rastejando pelo que resta.

E o verde virou nostalgia
Como se fosse dezembro
Último dia,
Último sonho,
Fim de festa.