13 de jul. de 2010

Paul Klee


AFINIDADES

Dentro de cada louco humano tolo
Habita não somente um âmago
Transparecido pela retina ofuscante
De um olhar
Há no disparar de cada coração
Um céu nublado,
Uma ponte entre a luz do querer
E o desbotar do adormecido sonho.

Dentro de cada louco humano tolo
Lembraças de ontem
Em caminhos percorridos com ternura,
Laçados pela neblina que envolve
Afinidades tantas!
Entre loucos transeuntes
Na solidão de mais um dia
Entre cegos humanos
(não reconhecem o espelho partido)
E entre tolos inocentes
que de perto vivem.

29 de mai. de 2010

Camille Pissaro

PAISAGEM INVENTADA

Luz de candeia acendeu
No mato arrepio de vento
E a voz do sossego sussurrou no ouvido-martelo
O rouxinol nem sequer apareceu
Voou sorrateiro,
Apaziguando quase tudo
Que pudesse estar em pranto
Leve, muito leve
Foi-se o pensamento
Numa folha amarelada
Em contraste com o solo enegrecido
No cume de um outeiro
Comovo-me com a água
Que escorre no leito da paisagem inventada
Quem dera ser o pó do caminho
Figura cravada no barro
De manhãzinha
Entre raios de sol
E passos de formiguinhas
Não sei o que penso
Deito na relva
E viro pedra novamente.

3 de mai. de 2010

foto: Márcio Jorge


COMPOSIÇÃO

Quero estar
No imaginável limite
Entre o céu e o mar,
Tragando o mistério
E o costume de segui-lo.

Quero sentir
De cada verso escrito
Um devasso mundo contido,
Atravessando o avesso do verso
Em rimas sólidas, sem disfarce!

Enquanto confesso,
Viajo calmamente em cidades caóticas
De fendas profundas e deuses eternos.

Quero querer
De vez em quando o acaso
Abusar do gozo insano
Em plena tarde de outono
Ou em plena tarde qualquer.

É preciso reinventar o sorriso
E comemorar a madrugada vazia
Como são aqueles
Que fazem do seu dia
A promessa de ontem.

Quero colher
Os pedaços que me faltam
Absorvendo o puro reflexo
Mesmo que pareça complexo
Tragar o próprio mistério.

É preciso continuar querendo
Flores de todos os jardins
Espatifando os imundos espinhos
Esses daninhos,
Fel do clã
que se compôs.

29 de mar. de 2010

Maurice de Vlaminck



PASSOS NA CONTRAMÃO

... E de leve perdi o riso
Beijei a flor
Ao sentir a brisa
Afinal,
De quem será a brisa?
Tal como a nascente
Parte a sombra de quem não mais existe.

O tempo e o homem
Comovem,
Suas queixas desvalidas
São tão novas quanto à bruta pedra polida.

Dentro da gruta infinita
Escondo esta alma de bardo
Ou apenas um semblante estarrecido,
Ingênuo
E por que não alegre dizer?
Sério brinquedo
Acima de um abismo.

9 de mar. de 2010

André Derain






















VÍCIO DI VERSOS

Vento sopra
Pedra rola
Ferro feri
Aqui
E ali.

Chuva cai
Traz o cheiro
Cheiro de pólvora
Cheiro de terra molhada,
Um cheiro outro qualquer.

Pena voa,
Que pena!
Bate no muro
Vira amargura
Aqui
E ali.

O lírio canta
A lira toca
Trova bonita
"Vício di versos"
delírio, delírio...

Vida passa
Cheia
Ou vazia
Prato raso
Raso dia
Luz apaga
Vive o breu
E sobre a mesa escura
Um papel rabiscado
Com palavras vadias:

Sonho,

Luta,

Amor,

Armadilha,

Tesouro,

Jardim,

Semente,

Soneto,

Promessa,

Corrente,

Beco,

Berro,

Alma,

Tudo.

Assim,
Ainda escreve
O poeta.

25 de jan. de 2010

Piet Mondrian
















NOSTALGIA VERDE

Bela como era
Não mais transita
Onde habita
Asas abertas,
Coloridas,
Expostas
E tantas vezes despidas
Fechadas na liberdade roubada
Pelo rústico instinto
Que penetra,
Tritura,
Afoga...

Lágrimas escorridas
Sangue na seiva
Nos velhos troncos
Velhas testemunhas...

Das queimadas,
Só se for a folha seca
Esturricada,
Atirada ao solo ardente
Seca,
Pelo sol seco.

Das caçadas,
Só se for a natural seleção
Naturalmente pura,
Discreta parte do reino ferido
Mendigando socorro,
Rastejando pelo que resta.

E o verde virou nostalgia
Como se fosse dezembro
Último dia,
Último sonho,
Fim de festa.

30 de dez. de 2009

Angeli


















FECHADO PARA BALANÇO!

O tempo passa e a história sempre se repete. Uns aumentam um pouquinho, outros inventam um tanto, porém ainda existem aqueles que descrevem exatamente as ocorrências do ano findado. Todos fecham para balanço e assim começam as reflexões sobre tudo o que já foi e não foi realizado. Êta choradeira!!!

Para não provocar avexamento, aviso logo aos navegantes que dessa vez vou fazer diferente. Não quero enumerar os meus descontentos, nem estender um tapete vermelho para orgulhosamente despejar as minhas conquistas, NÃO QUERO! Não vou agradecer, muito menos pedir alguma graça, quero apenas relembrar uma única coisa: estou vivo! Então, o que devo dizer ao constatar que continuo na singela “obrigação” de representar a mesma personagem da nobre condição humana? Antes que eu questionasse o sentido desta constatação, um livro do Pessoa caiu sobre minha cabeça e me trouxe a verdadeira importância daquilo que começara a pensar.

É sim! Claro que a poesia é um motivo que me faz lembrar o quanto estou vivo, assim como o mar, o sol, a lua, a chuva, o amor, a música, os bichos, os amigos, a família, o sofrimento, o açaí com morango, etc, etc, etc... Mesmo com tantos motivos “vivos”, o fio que conduz o caminho parece inatingível. Sei que temos medo e o sorriso já não se faz presente como outrora. O mundo está tão complicado, que perguntei a um lindo sofrê que pousou em minha varanda, porque tanta criança sofre, pois isso deveria ser coisa só de adulto. O pobre passarinho não soube me responder e voou como quem foge do assunto indesejado. Já disse que o mundo não está para brincadeira e ser otimista virou uma questão de heroísmo. Mas, pode parar tudo!!! Havia dito que não gastaria palavras para desafogar lamentos, não foi mesmo? Por isso, no amanhecer de mais um ano, vamos buscar no amor, a semente de tudo aquilo que nos alimenta!

Como não vou fechar para balanço, quero simplesmente dizer mais uma vez: CONTINUO VIVO!


Márcio Jorge.

9 de nov. de 2009

foto: Márcio Jorge


QUASE...

Queria sua vida
Por quase uma eternidade
Não fingi,
O que o filme revelara
Por quase todo tempo.

Queria uma história inacabada
De amor profundo
Sublime desabrochar de rosa
Em coragem ilimitada
Ao doar-se por completo
Equívoco passageiro
Certeza quase perfeita,
Quase sem culpa.



Este trabalho foi publicado também no blog da exposição "Cuide de Você" da artista plástica francesa Sophie Calle. (blog.sophiecalle.com.br)

2 de nov. de 2009

Van Gogh

ELO

Em vaga manhã toada,
A vista nua redescobre
O azul do céu de estrela única,
Brilhando comovente
No desejo da carícia plena.

Talhar a forma perfeita
Faz palpitar o menino,
Aflito,
Pela delicada ponta de estrela
Nos seus braços franzinos,
A pedir um afago suave
Envolto em rosa
Em canto que ecoa distante
No orgasmo da noite bela.

Alteiam os espasmos de êxtase
E as minguas de ciúme atropelam o menino
Displicente sobre a areia fina,
Adormece repleto
No seio ímpar.

Espuma morna do corpo infinito
Braços do mar a trazer o destino
Em verso, em prosa, em canção
No risco da débil tormenta
Sem sepultar o coração.

Abre-se a ternura
Em pétalas túrgidas
Soltas pelo ar de paixão
Profundo extravio,
Entornando o orvalho atrevido
Aonde caminha o amante menino
Sob o lampejo da estrela única.

13 de out. de 2009

Georges Rouault


PONTO FINAL

Aqui o vento não guia
O sopro não arrepia
O santo padece.

Aqui o verso não rima
O banjo não toca
O cárcere cativa.

Aqui o beijo não é na boca
A língua não lambe
O mosquito agradece.

Aqui não há vagas,
Não há luas,
Não é o começo de nada.

Aqui o verbo não auxilia
A sílaba é única,
A palavra atrofia.



28 de set. de 2009

Cândido Portinari

METAVORAZ

Fiz da hora “H”
Um raro instante
E de cada segundo que passou
Um infinito de portas entreabertas
Eterna meta,
Não só de um poeta!
Eterna meta,
Vida pouca!

Fiz de mim
Um sujeito assim calado
A procura de metas e metáforas
Eternos passos
Afogando o medo de não ter da meta:
A metade!
Que seja metáfora enquanto dure
E que seja arte se for eterna
(qual será a meta?)

Fiz da palavra
Um refúgio,
Entre versos que teimam
Em vencer o tema
Consumindo-me até o fim

Fiz de mim
Um sujeito assim romântico
Eterno estrangeiro
Fora da meta.


Escrevi este poema na adolescência após ouvir pela primeira vez a canção ” Metáfora” de Gilberto Gil.



5 de set. de 2009

Programação Cultural no Museu

pintura virtual: Uber Alves


SETEMBRO de 2009

CINEMA NO MUSEU CARLOS COSTA PINTO

03/09 - Meu coração canta ... vencendor de 1 Oscar - 15 horas
Diretor: Walter Lang
Atores: Susan Hayward, Rory Calhoun, David Wayne
Gênero: Drama Duração: 117 min Ano: 1952

10/09 - Enquanto você dormia- 15 horas
Diretor: Jon Turteltaub
Atores: Sandra Bullock, Bill Pullman, Peter Gallagher
Gênero: Comédia e Romance Duração: 103 min Ano: 1995

24/09 - A Doce Vida ... vencendor de 1 Oscar - 15 horas
Diretor: Federico Fellini
Atores: Marcelo Mastroiani, Anita Ekberg, Anouk Aimée]
Gênero: Drama Duração: 174 min Ano 1960

Ingressos: R$ 5,00 (preço único)


Palestra: O SIMBOLISMO DAS FLORES NAS ARTES DECORATIVAS

Palestrante: Simone Trindade
Museóloga, Historiadora e Mestre em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da Ufba

Dia: 17 de setembro (quinta-feira)
Horário: 15 horas
Entrada Franca

Música: RECITAL VILLA-LOBOS

Alunos de Graduação da Ufba
Sob a direção da Profa. Cyrene Paparoti

Dia: 19 de setembro (sábado)
Horário: 17 horas

O Recital Villa-Lobos conta com a parceria de Paparoti Concertos, Escola de Música da Ufba e Museu Carlos Costa Pinto.

Ingresso: R$ 5,00 (preço único)
Venda: Loja do Museu



OUTUBRO de 2009

Curso: SALVADOR - ASPECTOS HISTÓRICOS E URBANÍSTICOS

O Museu Carlos Costa Pinto apresentará uma nova visão da cidade de Salvador, fazendo uma inter-relação entre suas antigas paisagens, seu povo e sua história.

As aulas serão ministradas pelo geólogo e historiador
Prof. Rubens Antonio da Silva Filho

Programação

Dia 14/10 - Módulo I
De Ondina ao Porto da Barra

Dia 15/10 - Módulo II
Do Porto da Barra à Praça Municipal

Dia 16/10 - Módulo III
Da Praça Municipal à Água de Meninos

Horário: 17:00 às 18:30 horas
Taxa: R$ 30,00 Estudante: R$ 15,00
Inscrição: Loja do Museu, de quarta a sábado,
das 14:30 às 19:00 horas.
Tel.: 71 3336-6081

Museu Carlos Costa Pinto - Av. Sete de Setembro, 2490, Corredor da Vitória - Salvador, BAHIA.