Aldemir MartinsSOBERANO
Um pássaro voa,
E sobre nuvens ácidas
Esparrama a poeira que suja
o céu lancinante.
Um pássaro voa,
Extraindo da lama, o lírio!
Pétala por pétala,
Para longe do fastígio
Em gotas límpidas


tela de Giuseppe Santomaso
SEGUIMENTO
Aquela torre,
Onde escondo as incertezas do meu tempo
É alta e breve
Para todas as angústias presentes
Escalar solitário será a resposta
Quando apenas o poente parecer claro.
Guia-me o risco de luz
Que aponta para corda
Esmiuçada e curta,
Tenra para alavancar um corpo cansado
Sem gozo nem agonia.
Leva-me a um lugar de poesia
E que a brasa da aurora vinda
Transforme em cinzas
O deserto do coração.
Traga-me o palco das alegrias
Com palavras poucas
Em campo de descobertas
Vestido de cores
Anoitecido de contento.
PALAVRA (EN)CANTADA 

foto: Márcio Jorge
poema dedicado a Fernando PessoaESTRADO
Emil Nolde
Quem dera,
Fosse verdade a quimera!
A ruga que franze a testa,
esmoreceria breve.
No estrado erguido pelo descontento
Segue a vida mal servida
Caminho de chuvas e ventos
Desfazendo a longa marcha
do pensamento.
No estrado erguido pelo descontento
Segue a vida dividida
E o tempo tirano a perseguir
No corpo a corpo dos dias
O amor resistente,
Que resiste,
em fortaleza.
Quem dera,
Fosse verdade a quimera!
Nada desbotaria o lúdico
E o tempo tirano
Não resgataria o medo
de um final verecundo.
OS BARCOS
Na sóbria manhã que nasce
Oscilam as pálpebras alertas...
Os barcos,
Dentro dos meus olhos de náufrago
Também oscilam,
no espelho de águas infinitas.
A esmo conduzo o meu corpo
Ao porto clemente:
Oh, navegantes barcos perdidos!
Deslizam pelo mar revolto
Esgotando minha sede oscilante,
Como pálpebras,
Oscilante,
Como os barcos!
Ferveu a inspiração,
Surgida do cálido amor desnudo
E as palavras escorrem sobre o papel quente
de tanto amor.
Os versos espalham o sentimento exalado
Então, o que ainda restou?
Restou o seu poder absoluto
Que amalgama corpos afins
Fenecendo a certeza equívoca
De que não há mais tempo
para amar.
"dedicado a todos que vivem ou já viveram um grande amor."