Envolto em queixa
Não fui hoje o trigo,
Nem o joio
Não fui o acinte,
Nem a ferrugem da manhã sem graça
Lá fora, parece escuro
TUDO!
Aqui, ainda vaga o vagalume!
Luz pouca,
Tempo vasto
E o soluço constante!
ESTRADO
Emil Nolde
Quem dera,
Fosse verdade a quimera!
A ruga que franze a testa,
esmoreceria breve.
No estrado erguido pelo descontento
Segue a vida mal servida
Caminho de chuvas e ventos
Desfazendo a longa marcha
do pensamento.
No estrado erguido pelo descontento
Segue a vida dividida
E o tempo tirano a perseguir
No corpo a corpo dos dias
O amor resistente,
Que resiste,
em fortaleza.
Quem dera,
Fosse verdade a quimera!
Nada desbotaria o lúdico
E o tempo tirano
Não resgataria o medo
de um final verecundo.
OS BARCOS
Na sóbria manhã que nasce
Oscilam as pálpebras alertas...
Os barcos,
Dentro dos meus olhos de náufrago
Também oscilam,
no espelho de águas infinitas.
A esmo conduzo o meu corpo
Ao porto clemente:
Oh, navegantes barcos perdidos!
Deslizam pelo mar revolto
Esgotando minha sede oscilante,
Como pálpebras,
Oscilante,
Como os barcos!
Ferveu a inspiração,
Surgida do cálido amor desnudo
E as palavras escorrem sobre o papel quente
de tanto amor.
Os versos espalham o sentimento exalado
Então, o que ainda restou?
Restou o seu poder absoluto
Que amalgama corpos afins
Fenecendo a certeza equívoca
De que não há mais tempo
para amar.
"dedicado a todos que vivem ou já viveram um grande amor."

Havia (só) uma noite de lua minguante
Mínguas de lua para mim
Para que?
Havia um desejo secreto sob aquele sorriso discreto
Onde estão as estrelas da noite minguante?
As mínguas esparramam-se como pó
Em fornalhas,
apodrecem as miudezas...
Havia uma noite de lua minguante,
Crescente no sentido vário
Rara gota de esperança
Para que?
Para despejar o pó em relicário descoberto
Para transpor caminhos, vales,
selvas e mandengos...
Havia uma história invertida
Um recado,
uma ponte levando para o mesmo lado.
...
Ilustração: Camile Pissarro

Salvador Dali
Cândido PortinariMárcio Jorge